sábado, 24 de abril de 2010

"Des vontade"


Sempre pensei que gostasse muito de escrever. Pelo tempo de postagem aqui, descobri que não. Gosto mesmo é de conversar. Troca!
Hoje a vontade voltou.
Foi Alice a culpada. Vi o filme ontem.
Sonhar... Deixar o sonho acontecer.
Busquei o livro, o primeiro da infância e lá, me encontrei de novo com todo meu imaginário nonsense, mais real, muitas vezes, que as mazelas diárias.
"Seu coelho, seu coelho?!"
Corra, Alice, corra!!!!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

quinta-feira, 1 de maio de 2008

CONFIDÊNCIA

CONFIDÊNCIA

Diz o meu nome

pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti

sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos

sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável

procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome.
MIA COUTO

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Caipira sim senhor...


Quando num curso de pós-graduação um professor citou Antonio Cândido - "Os parceiros do Rio Bonito", em referência ao tempo mais lento do caipira, numa fala sobre temporalidade, e, junto, o chiste sobre a nossa reclamação do volume e a urgência das tarefas exigidas, não me senti incomodada. Afinal, ele falava sobre aquele que mostrou a cultura caipira de uma forma positiva, de vida comunitária forte, divergindo do preconceito de outros segmentos sociais da época, que definiam o caipira como preguiçoso e retrógrado. Mas depois, uma outra professora observou a maneira colorida de nossas vestes interioranas, levando em contrapartida a observação sobre o que a maioria das professoras usavam - saias longas escuras, blusas escuras e "colar de sociológa" (contas naturais). De repente, estava eu buscando refúgio em minha própria "pseudo" identidade caipira, rejeitando a suposta "identidade do outro".
Me "incomodou" ter ficado tão "incomodada" com as observações à nossa caipirice. Talvez pela definição de caipira no Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo:
Homem ou mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público (...) Habitante do interior, canhestro e tímido, desajeitado mas sonso... (Cascudo, 1988, 7ª edição).
Melindres a parte, a questão é outra. É combinar nossa participação no mundo afirmando nossa história cultural e história pessoal. Não isoladamente, mas defrontando-se com vários "outros" e reconhecendo-nos o direito de SER; somando as diferentes liberdades criativas para a construção de uma solidariedade coletiva.

Gosto de refletir sobre o que somos e fazemos e falar sobre isso. Não seria o caso de uma expressão pessoal localizada, datada, contra um universalismo, apenas mais uma tentativa de inserir no mundo nossa maneira de ser, mostrando aspectos universais nas manifestações mais particulares.




Na foto, tirada por mim, caipira sim senhor, vemos Dna Maria, feliz por "tirar um retrato" do mesmo jeito quando os fotógrafos passavam no sítio onde morava. A foto não é de lambe-lambe, e o painel é uma releitura de obra de Tarsila Amaral, mas a praça está numa cidadezinha do interior, a minha.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sou avó!





Nasceu meu neto. Pensei que não ia ficar boboca, fiquei!
Não é meu, mas é meu. De repente, me dou conta de vez que netos, filhos, não são mesmo nossos. Acontecemos na vida deles para preparmos a acolhida. E é bom, muito bom! Sentimos novamente aquela vontade doida de tentar fazer um mundo melhor, mais bonito. E vamos conseguir... O nosso, já está bem mais colorido e luminoso.
Obrigada, querido!
Seja muito feliz!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Se eu fosse Mata Hari...


De repente senti vontade de falar um pouco sobre minhas memórias. Não que tenha feitos espetaculares...Ah! Se eu fosse Mata Hari ... Que memorial eu não faria...Sem rimas bobas, uma vez que tal heroína não o merece, seria como abrir a caixa de Pandora , com ação e emoção do princípio ao fim, e todos diriam: OH! Que vida!!
Não o sendo, pensei em madeleines e chás exóticos, mas o sabor mesmo de minha infância é o bolo de fubá que a minha avó fazia. Tão capaz quanto, de penetrar naquilo que temos de mais nosso; a memória.
Tarefa difícil seguir uma cronologia, porque a memória sai do coração, e este, não segue os quadrinhos de nenhum calendário. Além do mais, no lugar da Mata Hari, sem véus, danças insinuantes, facadas e tiros, temos apenas uma Maria, educadora de escola do interior.
Segundo um farmacêutico da família, entre doídas e várias injeções ao redor do umbigo (o cachorro morreu antes de ficar louco ou não), eu sou Maria José porque se fosse menino seria o contrário, para glória e honra de José Maria, o farmacêutico, aquele; e somando-se à voz em advertência ríspida da mãe quando queria ralhar, o nome composto só é usado no papel e sou Zuza, Zu, Zuzu; apelido masculino dado por meus irmãos sem uma razão aparente que não fosse a de ser mais moleque nas brincadeiras que os moleques vizinhos.
Em minha genealogia, faltou apenas um francês para completar a Península Ibérica, desde que eu considere Andorra ainda como pertencente à França e desconsidere o Estreito de Gibraltar e os ingleses que por lá estejam. Admito a complicação em dizer apenas ter herdado do pai português a vontade de singrar mares nunca dantes navegados; do avô italiano a tendência para o trágico, o espetaculoso - coisinha básica que coloca a Itália também na Península Ibérica; e da avó espanhola a teimosia – não que seja teimosa, apenas estou quase sempre certa... rs
Quando entrei para a escola eu já sabia ler, como explicou para minha mãe a primeira professora. Até hoje não me explicaram. Penso que o fato de ter mãe leitora e irmãos mais velhos foi o diferencial, além dos “Trópicos, enciclopédia ilustrada em cores”, onde li a história da Mata pela primeira vez; do “Tesouro da Juventude”, que me respondia os questionamentos que iam além da curiosidade infantil, e da revista “O Cruzeiro” que fazia maior o horizonte da cidadezinha onde moro até hoje.
O pai era madeireiro, com uma grande serraria e calos enormes e queridos nas mãos. A mãe, lia a Enciclopédia Britânica, herança de seu pai, e “Marcelino de Carvalho nunca use a faca com a mão esquerda”. Cantávamos muito, tocávamos velhas canções, bebíamos muito vinho. Família festeira, com todos tios e tias e zilhões de primos nas festas natalinas e outras.
Sempre quis ser professora, como todos de casa o foram. O irmão mais velho foi diretor de escola também, antiga Escola de Comércio, e com ele aprendi o que considero a maior lição de amor à vida: transforme a realidade, pinte sonhos, dê colorido à rotina... Peixe grande demais para pouco aquário morreu aos 62 anos...A vida é sonho...
Com tantos livros à disposição, o primário me pareceu difícil de passar com todas aquelas coisas decoradas e pesadas saias plissadas de casimira. O ginásio já foi mais instigante, porque dava pra questionar mais os professores. Maravilha poder discutir onde estavam Adão e Eva no processo de cinco bilhões de ano de vida na Terra, e para onde iríamos quando o Sol se apagasse daqui a mais cinco. Isso me rendeu uma boa chinelada da mãe, católica praticante, mas fui salva pelo “la pequeña no puede preguntar?”, da avó que era católica, acreditava em espíritos, e na verdade, acreditava mais nas pessoas.
Por esta época apareceu meu professor de Português marcando ainda mais meu gosto pela leitura e desvendando os caminhos da poesia e da música clássica “para se ouvir com os poros e não os ouvidos”.
Por todo esse tempo, notava na família um certo tom de anarquistas . Anos 60, com todas as implicações de ditadura, eu lia Karl Marx , Proudhon, Mikhail Bakunin, Leon Tolstói (como chegaram às minhas mãos?). A avó se revelou uma Dolores Ibárruri disfarçada, quando defendeu a guarda-chuvadas um vizinho que a polícia queria levar para interrogatório, de onde depois não voltavam. Estávamos longe de onde as coisas aconteciam, mas dentro de todos os acontecimentos.
Como todas meninas daquela época, que estudavam piano, freqüentavam a missa das oito do domingo e usavam mini saia, fui fazer o curso normal e o clássico. Não quis saber do científico porque a matemática me parecia coisa de doidos e os livros me acompanhavam sempre. Gostava dos cursos e enquanto era apresentada aos pedagogos, psicólogos, sociólogos e filósofos, tinha as leituras paralelas, com livros fornecidos de muitas fontes. Herman Hesse, fez as fronteiras da minha cidade ficarem pequenas, mas eu já lera Jack London, Rimbaud e Walt Whitman “Deixai tudo, parti pela estrada”. Assim, os efeitos foram atenuados e conheci ELE. Ah! Aqueles olhos azuis me fizeram viajar mais que Kerouac em “On the Road”.
E acho que até aí está bom... Qualquer dia conto o que houve depois...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A vida em um breve instante

"Le Baiser de l'Hotel de Ville" Robert Doisneau - 1950

Gosto de desenhar e de pintar. Ano passado comecei tirar fotos. Tipos diferentes de artes visuais. Não sei ainda mexer direito com a máquina fotográfica, explorar seu recursos. Enfim, ainda estou aprendendo a fotografar. Me intrigam os inúmeros recursos que a tecnologia trouxe a fotografia. A manipulação de fotos, a digitalização, seria um recurso válido? Acredito que na teoria, todos manipulam. Na prática, é fato! Desde o momento que alguém está por trás da máquina fotográfica captando algo estará reconstruindo o real da maneira que melhor lhe agradar. Manipular o real é fazer um recorte da realidade; montar uma cena ou cenário. Na digitalização você manipula recriando; reiventa sobre alguma coisa...
Todos nós manipulamos. Ou escolhendo o melhor cenário, a expressão, o momento enfim, ao nosso gosto; ou, como no caso de uma das mais célebres fotos que corre o mundo, montando uma cena.
A foto acima, data de 1950, e é considerada a mais comercializada da história.
Durante muitos anos acreditou-se que Robert Doisneau tirou-a de uma cena real. Mestre que era em captar esse tipo de instântaneo entre os transeuntes - quase sempre parisienses anônimos. Esta imagem seria a de amantes beijando-se com paixão enquanto caminhavam no meio da multidão.
Até 1992 foi esta a história conhecida, quando então, dois impostores quiseram se fazer passar pelo casal protagonista da foto. Doisneau indignado pela falsa declaração, resolveu então revelar a história original: a fotografia não tinha sido tirada a esmo, mas tratava-se de dois transeuntes posando a seu pedido. Como pagamento da pose, uma cópia para cada um da fotografia. Françoise Bornet - a mulher do beijo - reclamou os direitos de imagem das cópias desta foto 55 anos depois e recebeu 200 mil dólares.
A manipulação feita diminui a beleza do instântaneo? Tem certeza?