
Quando num curso de pós-graduação um professor citou Antonio Cândido - "Os parceiros do Rio Bonito", em referência ao tempo mais lento do caipira, numa fala sobre temporalidade, e, junto, o chiste sobre a nossa reclamação do volume e a urgência das tarefas exigidas, não me senti incomodada. Afinal, ele falava sobre aquele que mostrou a cultura caipira de uma forma positiva, de vida comunitária forte, divergindo do preconceito de outros segmentos sociais da época, que definiam o caipira como preguiçoso e retrógrado. Mas depois, uma outra professora observou a maneira colorida de nossas vestes interioranas, levando em contrapartida a observação sobre o que a maioria das professoras usavam - saias longas escuras, blusas escuras e "colar de sociológa" (contas naturais). De repente, estava eu buscando refúgio em minha própria "pseudo" identidade caipira, rejeitando a suposta "identidade do outro".
Me "incomodou" ter ficado tão "incomodada" com as observações à nossa caipirice. Talvez pela definição de caipira no Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo:
Homem ou mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público (...) Habitante do interior, canhestro e tímido, desajeitado mas sonso... (Cascudo, 1988, 7ª edição).
Melindres a parte, a questão é outra. É combinar nossa participação no mundo afirmando nossa história cultural e história pessoal. Não isoladamente, mas defrontando-se com vários "outros" e reconhecendo-nos o direito de SER; somando as diferentes liberdades criativas para a construção de uma solidariedade coletiva.
Gosto de refletir sobre o que somos e fazemos e falar sobre isso. Não seria o caso de uma expressão pessoal localizada, datada, contra um universalismo, apenas mais uma tentativa de inserir no mundo nossa maneira de ser, mostrando aspectos universais nas manifestações mais particulares.
Na foto, tirada por mim, caipira sim senhor, vemos Dna Maria, feliz por "tirar um retrato" do mesmo jeito quando os fotógrafos passavam no sítio onde morava. A foto não é de lambe-lambe, e o painel é uma releitura de obra de Tarsila Amaral, mas a praça está numa cidadezinha do interior, a minha.