
De repente senti vontade de falar um pouco sobre minhas memórias. Não que tenha feitos espetaculares...Ah! Se eu fosse Mata Hari ... Que memorial eu não faria...Sem rimas bobas, uma vez que tal heroína não o merece, seria como abrir a caixa de Pandora , com ação e emoção do princípio ao fim, e todos diriam: OH! Que vida!!
Não o sendo, pensei em madeleines e chás exóticos, mas o sabor mesmo de minha infância é o bolo de fubá que a minha avó fazia. Tão capaz quanto, de penetrar naquilo que temos de mais nosso; a memória.
Tarefa difícil seguir uma cronologia, porque a memória sai do coração, e este, não segue os quadrinhos de nenhum calendário. Além do mais, no lugar da Mata Hari, sem véus, danças insinuantes, facadas e tiros, temos apenas uma Maria, educadora de escola do interior.
Segundo um farmacêutico da família, entre doídas e várias injeções ao redor do umbigo (o cachorro morreu antes de ficar louco ou não), eu sou Maria José porque se fosse menino seria o contrário, para glória e honra de José Maria, o farmacêutico, aquele; e somando-se à voz em advertência ríspida da mãe quando queria ralhar, o nome composto só é usado no papel e sou Zuza, Zu, Zuzu; apelido masculino dado por meus irmãos sem uma razão aparente que não fosse a de ser mais moleque nas brincadeiras que os moleques vizinhos.
Em minha genealogia, faltou apenas um francês para completar a Península Ibérica, desde que eu considere Andorra ainda como pertencente à França e desconsidere o Estreito de Gibraltar e os ingleses que por lá estejam. Admito a complicação em dizer apenas ter herdado do pai português a vontade de singrar mares nunca dantes navegados; do avô italiano a tendência para o trágico, o espetaculoso - coisinha básica que coloca a Itália também na Península Ibérica; e da avó espanhola a teimosia – não que seja teimosa, apenas estou quase sempre certa... rs
Quando entrei para a escola eu já sabia ler, como explicou para minha mãe a primeira professora. Até hoje não me explicaram. Penso que o fato de ter mãe leitora e irmãos mais velhos foi o diferencial, além dos “Trópicos, enciclopédia ilustrada em cores”, onde li a história da Mata pela primeira vez; do “Tesouro da Juventude”, que me respondia os questionamentos que iam além da curiosidade infantil, e da revista “O Cruzeiro” que fazia maior o horizonte da cidadezinha onde moro até hoje.
O pai era madeireiro, com uma grande serraria e calos enormes e queridos nas mãos. A mãe, lia a Enciclopédia Britânica, herança de seu pai, e “Marcelino de Carvalho nunca use a faca com a mão esquerda”. Cantávamos muito, tocávamos velhas canções, bebíamos muito vinho. Família festeira, com todos tios e tias e zilhões de primos nas festas natalinas e outras.
Sempre quis ser professora, como todos de casa o foram. O irmão mais velho foi diretor de escola também, antiga Escola de Comércio, e com ele aprendi o que considero a maior lição de amor à vida: transforme a realidade, pinte sonhos, dê colorido à rotina... Peixe grande demais para pouco aquário morreu aos 62 anos...A vida é sonho...
Com tantos livros à disposição, o primário me pareceu difícil de passar com todas aquelas coisas decoradas e pesadas saias plissadas de casimira. O ginásio já foi mais instigante, porque dava pra questionar mais os professores. Maravilha poder discutir onde estavam Adão e Eva no processo de cinco bilhões de ano de vida na Terra, e para onde iríamos quando o Sol se apagasse daqui a mais cinco. Isso me rendeu uma boa chinelada da mãe, católica praticante, mas fui salva pelo “la pequeña no puede preguntar?”, da avó que era católica, acreditava em espíritos, e na verdade, acreditava mais nas pessoas.
Por esta época apareceu meu professor de Português marcando ainda mais meu gosto pela leitura e desvendando os caminhos da poesia e da música clássica “para se ouvir com os poros e não os ouvidos”.
Não o sendo, pensei em madeleines e chás exóticos, mas o sabor mesmo de minha infância é o bolo de fubá que a minha avó fazia. Tão capaz quanto, de penetrar naquilo que temos de mais nosso; a memória.
Tarefa difícil seguir uma cronologia, porque a memória sai do coração, e este, não segue os quadrinhos de nenhum calendário. Além do mais, no lugar da Mata Hari, sem véus, danças insinuantes, facadas e tiros, temos apenas uma Maria, educadora de escola do interior.
Segundo um farmacêutico da família, entre doídas e várias injeções ao redor do umbigo (o cachorro morreu antes de ficar louco ou não), eu sou Maria José porque se fosse menino seria o contrário, para glória e honra de José Maria, o farmacêutico, aquele; e somando-se à voz em advertência ríspida da mãe quando queria ralhar, o nome composto só é usado no papel e sou Zuza, Zu, Zuzu; apelido masculino dado por meus irmãos sem uma razão aparente que não fosse a de ser mais moleque nas brincadeiras que os moleques vizinhos.
Em minha genealogia, faltou apenas um francês para completar a Península Ibérica, desde que eu considere Andorra ainda como pertencente à França e desconsidere o Estreito de Gibraltar e os ingleses que por lá estejam. Admito a complicação em dizer apenas ter herdado do pai português a vontade de singrar mares nunca dantes navegados; do avô italiano a tendência para o trágico, o espetaculoso - coisinha básica que coloca a Itália também na Península Ibérica; e da avó espanhola a teimosia – não que seja teimosa, apenas estou quase sempre certa... rs
Quando entrei para a escola eu já sabia ler, como explicou para minha mãe a primeira professora. Até hoje não me explicaram. Penso que o fato de ter mãe leitora e irmãos mais velhos foi o diferencial, além dos “Trópicos, enciclopédia ilustrada em cores”, onde li a história da Mata pela primeira vez; do “Tesouro da Juventude”, que me respondia os questionamentos que iam além da curiosidade infantil, e da revista “O Cruzeiro” que fazia maior o horizonte da cidadezinha onde moro até hoje.
O pai era madeireiro, com uma grande serraria e calos enormes e queridos nas mãos. A mãe, lia a Enciclopédia Britânica, herança de seu pai, e “Marcelino de Carvalho nunca use a faca com a mão esquerda”. Cantávamos muito, tocávamos velhas canções, bebíamos muito vinho. Família festeira, com todos tios e tias e zilhões de primos nas festas natalinas e outras.
Sempre quis ser professora, como todos de casa o foram. O irmão mais velho foi diretor de escola também, antiga Escola de Comércio, e com ele aprendi o que considero a maior lição de amor à vida: transforme a realidade, pinte sonhos, dê colorido à rotina... Peixe grande demais para pouco aquário morreu aos 62 anos...A vida é sonho...
Com tantos livros à disposição, o primário me pareceu difícil de passar com todas aquelas coisas decoradas e pesadas saias plissadas de casimira. O ginásio já foi mais instigante, porque dava pra questionar mais os professores. Maravilha poder discutir onde estavam Adão e Eva no processo de cinco bilhões de ano de vida na Terra, e para onde iríamos quando o Sol se apagasse daqui a mais cinco. Isso me rendeu uma boa chinelada da mãe, católica praticante, mas fui salva pelo “la pequeña no puede preguntar?”, da avó que era católica, acreditava em espíritos, e na verdade, acreditava mais nas pessoas.
Por esta época apareceu meu professor de Português marcando ainda mais meu gosto pela leitura e desvendando os caminhos da poesia e da música clássica “para se ouvir com os poros e não os ouvidos”.
Por todo esse tempo, notava na família um certo tom de anarquistas . Anos 60, com todas as implicações de ditadura, eu lia Karl Marx , Proudhon, Mikhail Bakunin, Leon Tolstói (como chegaram às minhas mãos?). A avó se revelou uma Dolores Ibárruri disfarçada, quando defendeu a guarda-chuvadas um vizinho que a polícia queria levar para interrogatório, de onde depois não voltavam. Estávamos longe de onde as coisas aconteciam, mas dentro de todos os acontecimentos.
Como todas meninas daquela época, que estudavam piano, freqüentavam a missa das oito do domingo e usavam mini saia, fui fazer o curso normal e o clássico. Não quis saber do científico porque a matemática me parecia coisa de doidos e os livros me acompanhavam sempre. Gostava dos cursos e enquanto era apresentada aos pedagogos, psicólogos, sociólogos e filósofos, tinha as leituras paralelas, com livros fornecidos de muitas fontes. Herman Hesse, fez as fronteiras da minha cidade ficarem pequenas, mas eu já lera Jack London, Rimbaud e Walt Whitman “Deixai tudo, parti pela estrada”. Assim, os efeitos foram atenuados e conheci ELE. Ah! Aqueles olhos azuis me fizeram viajar mais que Kerouac em “On the Road”.
Como todas meninas daquela época, que estudavam piano, freqüentavam a missa das oito do domingo e usavam mini saia, fui fazer o curso normal e o clássico. Não quis saber do científico porque a matemática me parecia coisa de doidos e os livros me acompanhavam sempre. Gostava dos cursos e enquanto era apresentada aos pedagogos, psicólogos, sociólogos e filósofos, tinha as leituras paralelas, com livros fornecidos de muitas fontes. Herman Hesse, fez as fronteiras da minha cidade ficarem pequenas, mas eu já lera Jack London, Rimbaud e Walt Whitman “Deixai tudo, parti pela estrada”. Assim, os efeitos foram atenuados e conheci ELE. Ah! Aqueles olhos azuis me fizeram viajar mais que Kerouac em “On the Road”.
E acho que até aí está bom... Qualquer dia conto o que houve depois...







