segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Distâncias

imagem: Ely Borges Frazão




Distâncias

Não é a distância que faz a saudade,

são os nossos diferentes caminhos.



Quanto de mim percorre
as estradas que te levam longe...
Quanto de ti vem a mim
por espaços que não são meus...


Meu querer desconheces,
são rotas não pretendidas.
Tuas veias, veredas que reconheço
como voltar lentamente à vida...


domingo, 18 de novembro de 2007

"¿Por qué no te callas?"

Eduardo Galeano, em seu livro “As veias abertas da América Latina”, discorre sobre a maneira como fomos colonizados e as mazelas que se refletem até hoje por conta disso. Espanhóis e portugueses, desde o século XV exploraram o continente usando a mesma tática: opressão colonial. Não economizaram em trabalhos forçados e tortura física, o que lhes possibilitou o enriquecimento. Atrás dos portugueses e espanhóis, os ingleses, de quem eram devedores. Por certo, fomos e somos figuras importantes para enriquecer algumas nações, mesmo às custas de intermináveis crises, provocadas por dolorosa desigualdade social.
O episódio na CUMBRE, onde o rei da Espanha lançou um "¿Por qué no te callas?", demonstrou a falta de educação e diplomacia do rei, se portando como o insolente conquistador do passado, que, ao ser confrontado pelo ‘antigo colono’, não admite e busca o fim do debate à velha maneira dos arrogantes que se acham acima dos outros, ou seja, com um autoritário: CALA A BOCA!
Não comungo com muitas das idéias de Chávez, mas o que se viu no episódio em questão, pareceu-me mais uma tentativa de humilhação pública, que o lamentável desfecho de divergências políticas.
No dia anterior ao episódio Zapatero já havia sido advertido, pelos chefes de estado latino-americanos, sobre a segunda hola espanhola que está se abatendo sobre a América Latina. Em sua fala, mesmo não sendo seu dia de usar a palavra, o primeiro ministro espanhol dizia para o mundo que os países pobres deveriam parar de colocar nos países ricos a culpa por seus problemas. Começa aí a interferência de Chávez com o seguinte: "Só porque você é espanhol, Zapatero, digno homem de esquerda, tem de defender qualquer m... espanhola? Então, você defenderia também o Aznar, aquele fascista que apoiou a invasão do Iraque e um golpe contra a Venezuela?”. Referia-se ao antigo primeiro ministro espanhol e sua adesão ao golpe para tirar Chávez do poder.
Depois foi o que se viu, chegando-se ao autoritário CALA A BOCA real.
O monarca poderia estar em um ‘dia de fúria’, mas seu comportamento pode ter outras leituras: mostrou que é um valentão; que Chávez poderia ser calado; que se deve desviar a atenção mundial sobre o que acontece política e economicamente entre os países ricos e pobres.

A relevância sobre o que ali era discutido ficou em segundo plano.

Que oportuno para a Espanha o gesto real...

domingo, 11 de novembro de 2007

DEVOLVE


Edward Hooper - New York Movie, 1939



Devolve
Mário Lago

Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi
Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci

Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci
Devolve, que eu devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti.


O entardecer nos dias chuvosos faz a gente olhar para trás. Não há nada lá. Restos de velhas máscaras desmanchando-se na garoa...
E enquanto isso, o rei da Espanha briga com o presidente venezuelano.



sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Quase avó...



Quando meu filho disse que eu ia ser avó, foi estranho. Me emocionei com a boa notícia, mas não ouvi anjos, trombetas e sinos como falam alguns. Estranhamente senti saudades... deles pequeninos...
Dia seguinte, meu aniversário, resolvi plantar quatrocentas árvores e acabar de escrever o livro que ainda nem começara. Nos intervalos, casaquinhos de tricô, cadeiras de balanço, berceuses murmuradas e pernas arrastando. Avó!
Meio da festa o "avô" diz baixinho e com lágrimas nos olhos que já poderia morrer... concordei docemente pensando em querubins gordinhos e... PERAÍ! Em dois dias estavamos envelhecendo rapidamente e representando estereótipos do século retrasado. Sempre gostamos muito de crianças e curtimos pra valer as várias fases dos filhos. Nada mais natural e prazeroso começar de novo. Isso requeria uma aventura, no mínimo para ter o que contar ao neto depois. Radicalizamos! Aproveitando os feriados de outubro fomos fazer rapel, canoagem e trilhas com todos os filhos. Foi bom demais...
Tive certeza que iria mesmo ser avó quando no meio da trilha selvagem e verticalíssima que vai dar em cima da cachoeira de mais de 45 metros, travei! Absolutamente, travei! O ar que se recusava a entrar nos pulmões provocava delírios de mais de quarenta anos de cigarro, picanhas, vodkas, além do gosto insuportável da falta de saliva... Os gêmeos, um deles pai da criança que tinha uma avó pregada na montanha, vieram em meu socorro. Um puxava e o outro empurrava. O avô, aquele que já podia morrer, subiu rapidinho, por conta de muitos anos sem fumar e uma magreza insultante, na minha modesta opinião. Nem me atrevi a ter medo de descer fazendo cascading (rapel na cachoeira), porque tinha certeza que meus pulmões haviam ficado em alguma árvore em meio àquela subida. Recuperei meus pulmões e o amor próprio na canoagem. A água, meu elemento, ajudou bastante, com aquela coisa dos corpos ficarem mais leves... Fizemos todos os níveis de dificuldade das corredeiras... Muito bom!!
É lógico que já estou comprando roupinhas e anunciando aos quatro ventos que meu neto vem... Muitas aventuras faremos juntos. Só para reforçar estou lendo as "Crônicas de Nárnia", ou elas, ou paro de fumar.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

E a saudade?


"És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste."

Cecília Meireles

Saudade de fazer forninho com as cobertas. 'Massaginha' nos pés. Peixe assado. Carne de músculo na panela. Bordar fantasias. Jangada de bambu. 'Cosquinha' na rede até perder fôlego. Saudade da gritaria, muitos risos, choro, música irritante.

O silêncio faz apertar a garganta. A mesa ficou grande demais...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Perigoso ser lúcida




"Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano – já me aconteceu antes.
Pois sei que – em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade – essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém. "

Clarice Lispector


Ah, Clarice... você já sabia.

Não posso ficar lúcida... enlouqueço.

sábado, 3 de novembro de 2007

Voam os tubarões?


Ilustração - Gustave Doré - 1887

"Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!"

Dante, Divina Comédia, Inferno, I, 1-6.



Lembranças não separam muito bem vivos e mortos. Quem faz a chamada é o amor. Não importa o lado do rio. Atravessou, não atravessou... lembro!

Estou "nel mezzo del cammin" da minha vida? Quantas moedas cobra mesmo Caronte? Não sei lidar direito com números, deixo a contabilidade por aí (onde por os cigarros? as caminhadas amanhã eu começo? ah, mas este vinho é mesmo italiano? carne ou vegetais?). Cansaço!

Tubarões não podem dormir. Parados, morrem asfixiados. Nadam até dormindo. Cansaço! E se parasse um pouco? Sinto dores nas feridas... Cansaço! Onde está o fim da floresta? Preciso parar...posso? Não!

Virgílio? Beatriz? Alguém?

Busco em mim a resposta. Cigarras não nadam, voam... e cantam até o fim.