quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Saci ou Bruxa?


"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."
(Guimarães Rosa - Grandes Sertões: Veredas)
"Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
and nothing to get hung about
Strawberry fields forever"
(Beatles - Strawberry fields forever -1967)
Substituir bruxa por saci, ou vice-versa, é matéria para discussões intermináveis.
Se o rumo da discussão fosse apenas o problema cultural e o questionamento sobre estarmos nos rendendo a costumes americanos, até que poderíamos considerar, mas não foi assim que aconteceu...
"Porque esse culto às bruxas se somos um povo temente a Deus?" - a frase veio acompanhada de olhares furibundos (eita palavrinha...), voz alterada e alguns perdigotos.
Antes de qualquer reação seguiu-se a enxurrada: "Bruxa é coisa do diabo..., O saci é nosso... (o petróleo também?), Bruxa só faz o mal..., O saci é apenas uma criança travessa..." - e dá-lhe perdigotos.
Apoplexia à vista, melhor ser democrata e 'jogar' a discussão para o grupo. Opiniões várias, algumas sobre a novela das oito e a última Caras, prevaleceu o "Halloween".
Dia do Saci? Ótimo! Mas sem revanchismo ou patriotadas com bruxas. Sem falar na maneira rasa de apelar-se, em última instância, a Deus. Fica meio sacana por a mãe ou Deus no meio... Cada um com o seu, oras! ( deixemos esse ítem para um próximo post).
O quanto existe de nacionalismo ou exclusão nessas pendengas, só as atitudes revelam. Não vejo os que criticam o Halloween falarem sobre Monteiro Lobato como um dos grandes escritores brasileiros e crítico ferrenho das mazelas políticas de sua época. Muitos nem cogitam sobre sua luta a favor do petróleo brasileiro, as críticas à política de minérios, a prisão no estado novo. Nem pensam em discutir o descaso e a briga das editoras com a grande obra do autor. Consideram normal falar sobre Harry Potter em detrimento de Pedrinho, saber até a cor do cabelo de Hermione e deixar Emília no esquecimento. As tradições brasileiras são resguardadas na obra de Monteiro Lobato. Nenhum autor mostra tanto do Brasil sem nos deixar fora do mundo.
Cultura é direito adquirido de qualquer pessoa. Falemos de nossas raízes, de nossos autores, mas sem esquecer que estamos no mundo. Por todos os perdigotos! Deixar a meninada 'brincar' com bruxas americanizadas não vai fazer desaparecer o nosso saci, desde que se fale mais, muito mais, sobre nosso povo, seu jeito de ser, suas necessidades, sonhos, esperanças...
Todos podem aprender na aula de inglês o "Trick or Treat" (Travessuras ou Gostosuras). Nada impede que conheçam os costumes celtas que originaram o dia das bruxas. Apenas mais conhecimento. Tentar ignorar o que estão vendo nas mídias várias é excluí-los de alguma forma.
Somos ricos em tradições e costumes. Não é bem o dia das bruxas que oferece perigo. Emília, uma de minhas personagens prediletas, fala sobre o mal real, a injustiça: "Dizem que não tenho coração. É falso. Tenho sim, um lindo. Só que não é de banana. Coisinhas à toa não o impressionam; mas ele dói quando vê uma injustiça. Dói tanto, que estou convencida que o maior mal deste mundo é a injustiça."
Agora, opinar sobre bruxas e sacis como se fossem entes reais, passa longe de qualquer discussão, mesmo perdigotada e furibundada.

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