segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz 2008



Desejo em 2008 que você seja sujeito de sua experiência de vida, tratando-a como um território de passagem, lugar de acolhida ao que chegar, espaço onde os acontecimentos têm tempo de ter tempo. Que deixe de lado a preocupação com o tempo pensado e faça uma abertura na paixão, na disponibilidade e até na incerteza para produzir mais sentido ao que está "por-vir".


Seja feliz!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal


"Navidad es amor en el corazón y tiempo para extender ese amor".






quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Aceitação é bem mais que tolerância



Sou sempre atraída por coisas que me acontecem, que me toquem... Não quero ficar como Carolina, apenas olhando a banda passar. A aventura de viver é maravilhosa, justamente por não ter fórmula, por um dia nunca ser igual ao outro. Eles vêm e vão... De cada um, fica o que nos marca... Walter Benjamin dizia ser cada vez mais rara a experiência, mesmo se passando tanta coisa. Se não nos permitirmos mais tempo e espaço para que as coisas nos aconteçam, não seremos sujeitos da experiência.

No caso da menina, infelizmente, eu sentia da parte da maioria, mais tolerância que aceitação. Digo infelizmente porque me queriam segura, determinada. É o ativismo moderno, que afeta aos que 'comandam' a escola de fora, e também aqueles que dela fazem parte, cobrando a todo instante, um papel, uma postura, uma resposta rápida e certeira, não nos deixando tempo para termos tempo.
E ela não facilitava nada. Estava sempre pré-disposta a brigar. “Bateu, levou!”, “comigo é assim, não levo desaforo para casa”. E dá-lhe diretoria!
Até o final da 6ª série perdi a conta das vezes que a encaminharam para lá. Professores, funcionários, pais de outras crianças, alunos agredidos, etc... Histórico familiar conhecido: mãe alcoólatra, diversos “padrastos” brutais até a morte da mãe, quando passa a ficar com o pai; menos agressivo, mas imbuído demais do papel de redentor tolerante.
Mas eu apostava nela. Aqueles olhos de princesa cigana demonstravam inteligência, mas também uma estranha certeza sobre o papel que dela era esperado: intolerância e agressividade.
Mudei meu discurso com ela e com os outros, procurando mostrar outras possibilidades de experimentar a vida. Falei de poesia, música, arte, e, conforme dizia Foucault, dotar de beleza a própria existência através da diversidade de vida que nos rodeia.
E ela começou a sentir diferente, pensar diferente. As respostas dos outros foram suavizando e um novo círculo foi sendo formado. Reinventar o mundo, acolher a todos, usar cores diferentes, inundar de música. Quanta coisa aí mesmo, e a gente na mesmice...
Choramos juntas na festa de conclusão de curso...

"Há momentos na vida em que saber que se pode pensar diferentemente do que se pensa, sentir diferentemente do que se aprendeu a sentir, ou realizar experiências sem muito receio de ser condenado, é fundamental para que possamos continuar olhando, sentindo e refletindo."


sábado, 15 de dezembro de 2007

Arquíloco e minha avó.


"...o coração dos homens tem a cor dos dias que Zeus traz; seu pensamento, a das ações que se entregam. " Arquíloco (primeira metade do século VII a.C.)





Fim de ano chegando. Trabalho saindo pelo ladrão. Dias com 26, 27 horas? Não resolveriam...
Administrar melhor o tempo? Pode ser... acho que é serviço mesmo. De repente parece que ficamos todos meio enlouquecidos. Ansiedade é a sensação geral.
O que queremos afinal? Entre o trabalho que nos prende um pouco mais, as compras que nem começamos, as festas de "encerramento", o amigo oculto no mínimo em três grupos diferentes, os presentes que ainda não pensamos... Ufa!
Calma! O trabalho será terminado quando for terminado. As festinhas de amigo oculto serão sempre aquela aventura onde quase 60% sai xingando: porque odiou o CD ganho; é a terceira vez seguida que recebe meia; a blusa é três números menores, etc, etc, etc...
E as compras, os presentes? As luzinhas enlouquecidas nas lojas, os sininhos martelando as eternas musiquinhas... tudo tão inho...
Ansiedade... Melhor respirar fundo e fazer uma coisa de cada vez. Incômoda a sensação de "ter" que fazer. Não gosto de me sentir obrigada, menos ainda tratando-se de festa.


Opa! A foto das crianças do orfanato no calendário me faz baixar os olhos. Pareço ouvir minha abuela: "Navidad es amor en el corazón y tiempo para extender ese amor".


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A Vida Verdadeira - Thiago de Mello





Quem entrega sua vida a serviço da vida e ao preço do amor, faz por merecer a vida. Está sobre e além de...
Conheço poucas pessoas que vivam tão intensa e levemente. Recebi este poema de uma delas. Sou grata por ter um amigo assim. Cada dia caminho melhor aprendendo com seus passos.



Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
Vida que não guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço
da vida.
Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor.
Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa.
Vem da terra dos barrancos
o
jeito doce e violento
da minha vida: esse gosto
da água negra transparente.
A vida vai no meu peito,
mas é quem vai me levando:
tição ardente velando,
girassol na escuridão.
Carrego um grito que cresce
Cada vez mais na garganta,
cravando seu travo triste
na verdade do meu canto.
Canto molhado e barrento
de menino do Amazonas
que viu a vida crescer
nos centro da terra firme.
Que sabe a vinda da chuva
pelo estremecer dos verdes
e sabe ler os recados
que chegam na asa do vento.
Mas sabe também o tempo
da febre e o gosto da fome.
Nas águas da minha infância
perdi o medo entre os rebojos.
Por isso avanço cantando
Estou no centro do rio
estou no meio da praça.
Piso firme no meu chão
sei que estou no meu lugar,
como a panela no fogo
e a estrela na escuridão.
O que passou não conta ?, indagarão
as bocas desprovidas.
Não deixa de valer nunca.
O que passou ensina
com sua garra e seu mel.
Por isso é que agora vou assim
no meu caminho. Publicamente andando
Não, não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
Aprendi
(o que o caminho me ensinou)
a caminhar cantando
como convém
a mim
e aos que vão comigo.
Pois já não vou mais sozinho.
Aqui tenho a minha vida:
feita à imagem do menino
que continua varando
os campos gerais
e que reparte o seu canto
como o seu avô
repartia o cacau
e fazia da colheita
uma ilha do bom socorro.
Feita à imagem do menino
mas a semelhança do homem:
com tudo que ele tem de primavera
de valente esperança e rebeldia.
Vida, casa encantada,
onde eu moro e mora em mim,
te quero assim verdadeira
cheirando a manga e jasmim.
Que me sejas deslumbrada
como ternura de moça
rolando sobre o capim.
Vida, toalha limpa
vida posta na mesa,
vida brasa vigilante
vida pedra e espuma
alçapão de amapolas,
sol dentro do mar,
estrume e rosa do amor:
a vida.


Há que merecê-la

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Os Estatutos do Homem - Thiago de Mello

foto: Sebastião Salgado

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
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Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
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Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
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Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura das palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
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Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
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Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
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Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
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Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
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Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
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Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
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Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
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Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
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Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
a festa do dia que chegou.
.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
.
Santiago do Chile, abril de 1964

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Filhão e Filhota



Encontrei Cris outro dia na feira. Seu efusivo cumprimento fez com que até o feirante da última barraca olhasse quem seria a linda, poderosa, deslumbrante, que ele proclamava aos gritos, giros e saltos. Por um momento tudo o que eu queria era ser a abóbora plácida da segunda barraquinha, mas, momento passado, me entreguei à alegria contagiante dele e giramos e saltamos. A feirante das abóboras deu um sorrisinho maroto, seu feirante marido foi assomado de um repentino ataque de Parkinson e desandou a mexer a cabeça como se do movimento dependessem todas as abóboras do planeta.

Quando menino Cris queria ser bailarino. Mas “bailarino meeeesmo, querida, de collant e sapatilha, igual ao russo que passou na televisão”. Com a bermuda branca e a blusa roxa bem que ele poderia estar num musical: pela leveza dos movimentos, o brilho que toda sua figura irradiava. No lugar das sapatilhas, porém, uma sandália de salto bem alto.
Em que momento Cris deixou de sonhar?
Lembrei-me do filme Billy Elliot e me veio à mente a distância entre a cultura brasileira e a de alguns países europeus. Em Billy, a vida dá certo conforme seus planos. Ele TEM uma família. Preconceituosa a principio, mas desenvolvida o suficiente para reconhecer o valor da arte e do artista. Billy TEM uma escola que desenvolve programas com conteúdos que vão além das 'matérias'. TEM uma professora que faz avaliações reflexivas das habilidades, atitudes, e ainda valoriza e respeita as escolhas de cada um. Em nossas escolas trabalha-se pouco os Temas Transversais (abordagem de vários assuntos com predominância da ética). Esquecem que eles fazem parte dos conteúdos de forma a permitir que TODAS as disciplinas os trabalhem. É comum ouvir-se nas conversas, observações como: “Ah, aquele... a bichinha da terceira carteira...”, ou, “A fulana, não sei não... você viu a roupa de menino que ela usa?” Não digo que a “culpa” é da escola e dos professores. Eles geralmente reproduzem o preconceito sexual absurdo e arcaico que ainda permeia nossa sociedade, sem conseguir romper totalmente o círculo rançoso para construir o novo, o saudável.
Desde o nascimento as meninas ganham coisas de meninas e os meninos, de menino. Isso não é um preconceito sexual velado? Se a mãe ou o pai vêm o filhão experimentando o sapato de salto e o vestido da irmã, o que acontece? É um ai-meu-deus sem tamanho... O filhão deverá ser o maior centro avante do time e, para isso, ganha bola e chuteira ainda no berço... A filhota deverá ser a princesinha da turma e, para isso, tem a orelha furada ainda na maternidade e ganha o conjunto pulseirinha - brinquinho da madrinha... O que isso é, senão papéis sexuais pré-determinados? Estereotipo do que deve ser o papel do homem e da mulher.
O que vemos constantemente pisado e repisado na televisão brasileira? Raramente um programa sobre balé, formação de bailarinos, ou congêneres. Em contrapartida, zilhões de piadinhas idiotas que tentam fazer rir usando puramente o preconceito. Gordos, idosos, homossexuais, enfim, qualquer um que fuja aos parâmetros ditos normais. Onde está a normalidade? O que é ser normal? Quem estabeleceu esses parâmetros comparativos? Socialmente e culturalmente estamos a uma enorme distância de onde se passa Billy. Entretanto, não há desculpa para o desamor, desrespeito e a falta de ética. Preparar para a vida traz consigo a noção que alguma coisa deve acontecer lá na frente. Não há preparo para... a hora é agora... a realidade é agora.

A opção sexual de Cris, nada tem a ver com seu desejo menino de ser bailarino. Hoje, ele trabalha como carregador de sacos (60k) na cooperativa local e seu bíceps faria inveja ao Stalone.
Comprei duas abóboras enormes, o que provocou um suadouro no feirante-abóbora pela distância do meu carro, afinal, eu e Cris estávamos com as mãos ocupadas com os copos de caldo de cana e algumas sacolinhas com verduras e flores...

domingo, 2 de dezembro de 2007

Nem Dante...

imagem: O inferno de Dante (detalhe) - Brunelleschi


O caso da menina de Abaetuba (PA), presa em uma cela com vários homens por quase um mês, traz a tona toda nossa bestialidade. Entre tantos, mais um caso de violação sádica da dignidade humana, resultante do desprezo social e do desdém pelos marginalizados.
Depois do crime cometido, causa revolta a maneira como os envolvidos se defendem. A idade da menina é motivo para alegações de desconhecimento até ameaças e fraude de documentação. Seria até engraçado, se não fosse tão trágico. Aos quinze não pode; aos dezoito pode? Aos sessenta a mulher teria que pagar aos presos?
Revoltante a condição feminina determinada como descarga sexual. Se já está na prostituição, não é mais considerado o estupro ou a tortura. Nomeadas latrinas de todas as taras têm negado qualquer simulacro de justiça. Com ‘elas’ tudo é válido. Como se esse olhar imoral e amoral diminuísse algo da bruteza do sistema, ou a dor das vítimas.
Aprisionadas em celas verdadeiras ou em celas de prostíbulos, transitam nossas meninas quase sem socorro. E o socorro faz-se impossível, algumas vezes, quando parte da própria ‘justiça’ o descalabro.
Li no jornal que um dos presos, compadecido pela situação da menina, cuidou de buscar em uma escola, o atestado de sua idade. Comportou-se com mais dignidade que todo o sistema prisional do caso.
Nem Dante teria pensado para seu inferno uma tortura tão hedionda...