domingo, 2 de dezembro de 2007

Nem Dante...

imagem: O inferno de Dante (detalhe) - Brunelleschi


O caso da menina de Abaetuba (PA), presa em uma cela com vários homens por quase um mês, traz a tona toda nossa bestialidade. Entre tantos, mais um caso de violação sádica da dignidade humana, resultante do desprezo social e do desdém pelos marginalizados.
Depois do crime cometido, causa revolta a maneira como os envolvidos se defendem. A idade da menina é motivo para alegações de desconhecimento até ameaças e fraude de documentação. Seria até engraçado, se não fosse tão trágico. Aos quinze não pode; aos dezoito pode? Aos sessenta a mulher teria que pagar aos presos?
Revoltante a condição feminina determinada como descarga sexual. Se já está na prostituição, não é mais considerado o estupro ou a tortura. Nomeadas latrinas de todas as taras têm negado qualquer simulacro de justiça. Com ‘elas’ tudo é válido. Como se esse olhar imoral e amoral diminuísse algo da bruteza do sistema, ou a dor das vítimas.
Aprisionadas em celas verdadeiras ou em celas de prostíbulos, transitam nossas meninas quase sem socorro. E o socorro faz-se impossível, algumas vezes, quando parte da própria ‘justiça’ o descalabro.
Li no jornal que um dos presos, compadecido pela situação da menina, cuidou de buscar em uma escola, o atestado de sua idade. Comportou-se com mais dignidade que todo o sistema prisional do caso.
Nem Dante teria pensado para seu inferno uma tortura tão hedionda...

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