quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Aceitação é bem mais que tolerância



Sou sempre atraída por coisas que me acontecem, que me toquem... Não quero ficar como Carolina, apenas olhando a banda passar. A aventura de viver é maravilhosa, justamente por não ter fórmula, por um dia nunca ser igual ao outro. Eles vêm e vão... De cada um, fica o que nos marca... Walter Benjamin dizia ser cada vez mais rara a experiência, mesmo se passando tanta coisa. Se não nos permitirmos mais tempo e espaço para que as coisas nos aconteçam, não seremos sujeitos da experiência.

No caso da menina, infelizmente, eu sentia da parte da maioria, mais tolerância que aceitação. Digo infelizmente porque me queriam segura, determinada. É o ativismo moderno, que afeta aos que 'comandam' a escola de fora, e também aqueles que dela fazem parte, cobrando a todo instante, um papel, uma postura, uma resposta rápida e certeira, não nos deixando tempo para termos tempo.
E ela não facilitava nada. Estava sempre pré-disposta a brigar. “Bateu, levou!”, “comigo é assim, não levo desaforo para casa”. E dá-lhe diretoria!
Até o final da 6ª série perdi a conta das vezes que a encaminharam para lá. Professores, funcionários, pais de outras crianças, alunos agredidos, etc... Histórico familiar conhecido: mãe alcoólatra, diversos “padrastos” brutais até a morte da mãe, quando passa a ficar com o pai; menos agressivo, mas imbuído demais do papel de redentor tolerante.
Mas eu apostava nela. Aqueles olhos de princesa cigana demonstravam inteligência, mas também uma estranha certeza sobre o papel que dela era esperado: intolerância e agressividade.
Mudei meu discurso com ela e com os outros, procurando mostrar outras possibilidades de experimentar a vida. Falei de poesia, música, arte, e, conforme dizia Foucault, dotar de beleza a própria existência através da diversidade de vida que nos rodeia.
E ela começou a sentir diferente, pensar diferente. As respostas dos outros foram suavizando e um novo círculo foi sendo formado. Reinventar o mundo, acolher a todos, usar cores diferentes, inundar de música. Quanta coisa aí mesmo, e a gente na mesmice...
Choramos juntas na festa de conclusão de curso...

"Há momentos na vida em que saber que se pode pensar diferentemente do que se pensa, sentir diferentemente do que se aprendeu a sentir, ou realizar experiências sem muito receio de ser condenado, é fundamental para que possamos continuar olhando, sentindo e refletindo."


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