sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Filhão e Filhota



Encontrei Cris outro dia na feira. Seu efusivo cumprimento fez com que até o feirante da última barraca olhasse quem seria a linda, poderosa, deslumbrante, que ele proclamava aos gritos, giros e saltos. Por um momento tudo o que eu queria era ser a abóbora plácida da segunda barraquinha, mas, momento passado, me entreguei à alegria contagiante dele e giramos e saltamos. A feirante das abóboras deu um sorrisinho maroto, seu feirante marido foi assomado de um repentino ataque de Parkinson e desandou a mexer a cabeça como se do movimento dependessem todas as abóboras do planeta.

Quando menino Cris queria ser bailarino. Mas “bailarino meeeesmo, querida, de collant e sapatilha, igual ao russo que passou na televisão”. Com a bermuda branca e a blusa roxa bem que ele poderia estar num musical: pela leveza dos movimentos, o brilho que toda sua figura irradiava. No lugar das sapatilhas, porém, uma sandália de salto bem alto.
Em que momento Cris deixou de sonhar?
Lembrei-me do filme Billy Elliot e me veio à mente a distância entre a cultura brasileira e a de alguns países europeus. Em Billy, a vida dá certo conforme seus planos. Ele TEM uma família. Preconceituosa a principio, mas desenvolvida o suficiente para reconhecer o valor da arte e do artista. Billy TEM uma escola que desenvolve programas com conteúdos que vão além das 'matérias'. TEM uma professora que faz avaliações reflexivas das habilidades, atitudes, e ainda valoriza e respeita as escolhas de cada um. Em nossas escolas trabalha-se pouco os Temas Transversais (abordagem de vários assuntos com predominância da ética). Esquecem que eles fazem parte dos conteúdos de forma a permitir que TODAS as disciplinas os trabalhem. É comum ouvir-se nas conversas, observações como: “Ah, aquele... a bichinha da terceira carteira...”, ou, “A fulana, não sei não... você viu a roupa de menino que ela usa?” Não digo que a “culpa” é da escola e dos professores. Eles geralmente reproduzem o preconceito sexual absurdo e arcaico que ainda permeia nossa sociedade, sem conseguir romper totalmente o círculo rançoso para construir o novo, o saudável.
Desde o nascimento as meninas ganham coisas de meninas e os meninos, de menino. Isso não é um preconceito sexual velado? Se a mãe ou o pai vêm o filhão experimentando o sapato de salto e o vestido da irmã, o que acontece? É um ai-meu-deus sem tamanho... O filhão deverá ser o maior centro avante do time e, para isso, ganha bola e chuteira ainda no berço... A filhota deverá ser a princesinha da turma e, para isso, tem a orelha furada ainda na maternidade e ganha o conjunto pulseirinha - brinquinho da madrinha... O que isso é, senão papéis sexuais pré-determinados? Estereotipo do que deve ser o papel do homem e da mulher.
O que vemos constantemente pisado e repisado na televisão brasileira? Raramente um programa sobre balé, formação de bailarinos, ou congêneres. Em contrapartida, zilhões de piadinhas idiotas que tentam fazer rir usando puramente o preconceito. Gordos, idosos, homossexuais, enfim, qualquer um que fuja aos parâmetros ditos normais. Onde está a normalidade? O que é ser normal? Quem estabeleceu esses parâmetros comparativos? Socialmente e culturalmente estamos a uma enorme distância de onde se passa Billy. Entretanto, não há desculpa para o desamor, desrespeito e a falta de ética. Preparar para a vida traz consigo a noção que alguma coisa deve acontecer lá na frente. Não há preparo para... a hora é agora... a realidade é agora.

A opção sexual de Cris, nada tem a ver com seu desejo menino de ser bailarino. Hoje, ele trabalha como carregador de sacos (60k) na cooperativa local e seu bíceps faria inveja ao Stalone.
Comprei duas abóboras enormes, o que provocou um suadouro no feirante-abóbora pela distância do meu carro, afinal, eu e Cris estávamos com as mãos ocupadas com os copos de caldo de cana e algumas sacolinhas com verduras e flores...

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