sábado, 24 de abril de 2010

"Des vontade"


Sempre pensei que gostasse muito de escrever. Pelo tempo de postagem aqui, descobri que não. Gosto mesmo é de conversar. Troca!
Hoje a vontade voltou.
Foi Alice a culpada. Vi o filme ontem.
Sonhar... Deixar o sonho acontecer.
Busquei o livro, o primeiro da infância e lá, me encontrei de novo com todo meu imaginário nonsense, mais real, muitas vezes, que as mazelas diárias.
"Seu coelho, seu coelho?!"
Corra, Alice, corra!!!!

segunda-feira, 2 de junho de 2008

quinta-feira, 1 de maio de 2008

CONFIDÊNCIA

CONFIDÊNCIA

Diz o meu nome

pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Porque eu cresço para ti

sou eu dentro de ti
que bebe a última gota
e te conduzo a um lugar
sem tempo nem contorno

Porque apenas para os teus olhos

sou gesto e cor
e dentro de ti
me recolho ferido
exausto dos combates
em que a mim próprio me venci

Porque a minha mão infatigável

procura o interior e o avesso
da aparência
porque o tempo em que vivo
morre de ser ontem
e é urgente inventar
outra maneira de navegar
outro rumo outro pulsar
para dar esperança aos portos
que aguardam pensativos

No húmido centro da noite
diz o meu nome
como se eu te fosse estranho
como se fosse intruso
para que eu mesmo me desconheça
e me sobressalte
quando suavemente
pronunciares o meu nome.
MIA COUTO

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Caipira sim senhor...


Quando num curso de pós-graduação um professor citou Antonio Cândido - "Os parceiros do Rio Bonito", em referência ao tempo mais lento do caipira, numa fala sobre temporalidade, e, junto, o chiste sobre a nossa reclamação do volume e a urgência das tarefas exigidas, não me senti incomodada. Afinal, ele falava sobre aquele que mostrou a cultura caipira de uma forma positiva, de vida comunitária forte, divergindo do preconceito de outros segmentos sociais da época, que definiam o caipira como preguiçoso e retrógrado. Mas depois, uma outra professora observou a maneira colorida de nossas vestes interioranas, levando em contrapartida a observação sobre o que a maioria das professoras usavam - saias longas escuras, blusas escuras e "colar de sociológa" (contas naturais). De repente, estava eu buscando refúgio em minha própria "pseudo" identidade caipira, rejeitando a suposta "identidade do outro".
Me "incomodou" ter ficado tão "incomodada" com as observações à nossa caipirice. Talvez pela definição de caipira no Dicionário do Folclore Brasileiro de Câmara Cascudo:
Homem ou mulher que não mora na povoação, que não tem instrução ou trato social, que não sabe vestir-se ou apresentar-se em público (...) Habitante do interior, canhestro e tímido, desajeitado mas sonso... (Cascudo, 1988, 7ª edição).
Melindres a parte, a questão é outra. É combinar nossa participação no mundo afirmando nossa história cultural e história pessoal. Não isoladamente, mas defrontando-se com vários "outros" e reconhecendo-nos o direito de SER; somando as diferentes liberdades criativas para a construção de uma solidariedade coletiva.

Gosto de refletir sobre o que somos e fazemos e falar sobre isso. Não seria o caso de uma expressão pessoal localizada, datada, contra um universalismo, apenas mais uma tentativa de inserir no mundo nossa maneira de ser, mostrando aspectos universais nas manifestações mais particulares.




Na foto, tirada por mim, caipira sim senhor, vemos Dna Maria, feliz por "tirar um retrato" do mesmo jeito quando os fotógrafos passavam no sítio onde morava. A foto não é de lambe-lambe, e o painel é uma releitura de obra de Tarsila Amaral, mas a praça está numa cidadezinha do interior, a minha.


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sou avó!





Nasceu meu neto. Pensei que não ia ficar boboca, fiquei!
Não é meu, mas é meu. De repente, me dou conta de vez que netos, filhos, não são mesmo nossos. Acontecemos na vida deles para preparmos a acolhida. E é bom, muito bom! Sentimos novamente aquela vontade doida de tentar fazer um mundo melhor, mais bonito. E vamos conseguir... O nosso, já está bem mais colorido e luminoso.
Obrigada, querido!
Seja muito feliz!

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Se eu fosse Mata Hari...


De repente senti vontade de falar um pouco sobre minhas memórias. Não que tenha feitos espetaculares...Ah! Se eu fosse Mata Hari ... Que memorial eu não faria...Sem rimas bobas, uma vez que tal heroína não o merece, seria como abrir a caixa de Pandora , com ação e emoção do princípio ao fim, e todos diriam: OH! Que vida!!
Não o sendo, pensei em madeleines e chás exóticos, mas o sabor mesmo de minha infância é o bolo de fubá que a minha avó fazia. Tão capaz quanto, de penetrar naquilo que temos de mais nosso; a memória.
Tarefa difícil seguir uma cronologia, porque a memória sai do coração, e este, não segue os quadrinhos de nenhum calendário. Além do mais, no lugar da Mata Hari, sem véus, danças insinuantes, facadas e tiros, temos apenas uma Maria, educadora de escola do interior.
Segundo um farmacêutico da família, entre doídas e várias injeções ao redor do umbigo (o cachorro morreu antes de ficar louco ou não), eu sou Maria José porque se fosse menino seria o contrário, para glória e honra de José Maria, o farmacêutico, aquele; e somando-se à voz em advertência ríspida da mãe quando queria ralhar, o nome composto só é usado no papel e sou Zuza, Zu, Zuzu; apelido masculino dado por meus irmãos sem uma razão aparente que não fosse a de ser mais moleque nas brincadeiras que os moleques vizinhos.
Em minha genealogia, faltou apenas um francês para completar a Península Ibérica, desde que eu considere Andorra ainda como pertencente à França e desconsidere o Estreito de Gibraltar e os ingleses que por lá estejam. Admito a complicação em dizer apenas ter herdado do pai português a vontade de singrar mares nunca dantes navegados; do avô italiano a tendência para o trágico, o espetaculoso - coisinha básica que coloca a Itália também na Península Ibérica; e da avó espanhola a teimosia – não que seja teimosa, apenas estou quase sempre certa... rs
Quando entrei para a escola eu já sabia ler, como explicou para minha mãe a primeira professora. Até hoje não me explicaram. Penso que o fato de ter mãe leitora e irmãos mais velhos foi o diferencial, além dos “Trópicos, enciclopédia ilustrada em cores”, onde li a história da Mata pela primeira vez; do “Tesouro da Juventude”, que me respondia os questionamentos que iam além da curiosidade infantil, e da revista “O Cruzeiro” que fazia maior o horizonte da cidadezinha onde moro até hoje.
O pai era madeireiro, com uma grande serraria e calos enormes e queridos nas mãos. A mãe, lia a Enciclopédia Britânica, herança de seu pai, e “Marcelino de Carvalho nunca use a faca com a mão esquerda”. Cantávamos muito, tocávamos velhas canções, bebíamos muito vinho. Família festeira, com todos tios e tias e zilhões de primos nas festas natalinas e outras.
Sempre quis ser professora, como todos de casa o foram. O irmão mais velho foi diretor de escola também, antiga Escola de Comércio, e com ele aprendi o que considero a maior lição de amor à vida: transforme a realidade, pinte sonhos, dê colorido à rotina... Peixe grande demais para pouco aquário morreu aos 62 anos...A vida é sonho...
Com tantos livros à disposição, o primário me pareceu difícil de passar com todas aquelas coisas decoradas e pesadas saias plissadas de casimira. O ginásio já foi mais instigante, porque dava pra questionar mais os professores. Maravilha poder discutir onde estavam Adão e Eva no processo de cinco bilhões de ano de vida na Terra, e para onde iríamos quando o Sol se apagasse daqui a mais cinco. Isso me rendeu uma boa chinelada da mãe, católica praticante, mas fui salva pelo “la pequeña no puede preguntar?”, da avó que era católica, acreditava em espíritos, e na verdade, acreditava mais nas pessoas.
Por esta época apareceu meu professor de Português marcando ainda mais meu gosto pela leitura e desvendando os caminhos da poesia e da música clássica “para se ouvir com os poros e não os ouvidos”.
Por todo esse tempo, notava na família um certo tom de anarquistas . Anos 60, com todas as implicações de ditadura, eu lia Karl Marx , Proudhon, Mikhail Bakunin, Leon Tolstói (como chegaram às minhas mãos?). A avó se revelou uma Dolores Ibárruri disfarçada, quando defendeu a guarda-chuvadas um vizinho que a polícia queria levar para interrogatório, de onde depois não voltavam. Estávamos longe de onde as coisas aconteciam, mas dentro de todos os acontecimentos.
Como todas meninas daquela época, que estudavam piano, freqüentavam a missa das oito do domingo e usavam mini saia, fui fazer o curso normal e o clássico. Não quis saber do científico porque a matemática me parecia coisa de doidos e os livros me acompanhavam sempre. Gostava dos cursos e enquanto era apresentada aos pedagogos, psicólogos, sociólogos e filósofos, tinha as leituras paralelas, com livros fornecidos de muitas fontes. Herman Hesse, fez as fronteiras da minha cidade ficarem pequenas, mas eu já lera Jack London, Rimbaud e Walt Whitman “Deixai tudo, parti pela estrada”. Assim, os efeitos foram atenuados e conheci ELE. Ah! Aqueles olhos azuis me fizeram viajar mais que Kerouac em “On the Road”.
E acho que até aí está bom... Qualquer dia conto o que houve depois...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A vida em um breve instante

"Le Baiser de l'Hotel de Ville" Robert Doisneau - 1950

Gosto de desenhar e de pintar. Ano passado comecei tirar fotos. Tipos diferentes de artes visuais. Não sei ainda mexer direito com a máquina fotográfica, explorar seu recursos. Enfim, ainda estou aprendendo a fotografar. Me intrigam os inúmeros recursos que a tecnologia trouxe a fotografia. A manipulação de fotos, a digitalização, seria um recurso válido? Acredito que na teoria, todos manipulam. Na prática, é fato! Desde o momento que alguém está por trás da máquina fotográfica captando algo estará reconstruindo o real da maneira que melhor lhe agradar. Manipular o real é fazer um recorte da realidade; montar uma cena ou cenário. Na digitalização você manipula recriando; reiventa sobre alguma coisa...
Todos nós manipulamos. Ou escolhendo o melhor cenário, a expressão, o momento enfim, ao nosso gosto; ou, como no caso de uma das mais célebres fotos que corre o mundo, montando uma cena.
A foto acima, data de 1950, e é considerada a mais comercializada da história.
Durante muitos anos acreditou-se que Robert Doisneau tirou-a de uma cena real. Mestre que era em captar esse tipo de instântaneo entre os transeuntes - quase sempre parisienses anônimos. Esta imagem seria a de amantes beijando-se com paixão enquanto caminhavam no meio da multidão.
Até 1992 foi esta a história conhecida, quando então, dois impostores quiseram se fazer passar pelo casal protagonista da foto. Doisneau indignado pela falsa declaração, resolveu então revelar a história original: a fotografia não tinha sido tirada a esmo, mas tratava-se de dois transeuntes posando a seu pedido. Como pagamento da pose, uma cópia para cada um da fotografia. Françoise Bornet - a mulher do beijo - reclamou os direitos de imagem das cópias desta foto 55 anos depois e recebeu 200 mil dólares.
A manipulação feita diminui a beleza do instântaneo? Tem certeza?


quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Reflexões para 2008





Recebi por e-mail - autor desconhecido -

Nossas propostas individuais de mudança podem fazer diferença para um mundo melhor.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz 2008



Desejo em 2008 que você seja sujeito de sua experiência de vida, tratando-a como um território de passagem, lugar de acolhida ao que chegar, espaço onde os acontecimentos têm tempo de ter tempo. Que deixe de lado a preocupação com o tempo pensado e faça uma abertura na paixão, na disponibilidade e até na incerteza para produzir mais sentido ao que está "por-vir".


Seja feliz!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal


"Navidad es amor en el corazón y tiempo para extender ese amor".






quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Aceitação é bem mais que tolerância



Sou sempre atraída por coisas que me acontecem, que me toquem... Não quero ficar como Carolina, apenas olhando a banda passar. A aventura de viver é maravilhosa, justamente por não ter fórmula, por um dia nunca ser igual ao outro. Eles vêm e vão... De cada um, fica o que nos marca... Walter Benjamin dizia ser cada vez mais rara a experiência, mesmo se passando tanta coisa. Se não nos permitirmos mais tempo e espaço para que as coisas nos aconteçam, não seremos sujeitos da experiência.

No caso da menina, infelizmente, eu sentia da parte da maioria, mais tolerância que aceitação. Digo infelizmente porque me queriam segura, determinada. É o ativismo moderno, que afeta aos que 'comandam' a escola de fora, e também aqueles que dela fazem parte, cobrando a todo instante, um papel, uma postura, uma resposta rápida e certeira, não nos deixando tempo para termos tempo.
E ela não facilitava nada. Estava sempre pré-disposta a brigar. “Bateu, levou!”, “comigo é assim, não levo desaforo para casa”. E dá-lhe diretoria!
Até o final da 6ª série perdi a conta das vezes que a encaminharam para lá. Professores, funcionários, pais de outras crianças, alunos agredidos, etc... Histórico familiar conhecido: mãe alcoólatra, diversos “padrastos” brutais até a morte da mãe, quando passa a ficar com o pai; menos agressivo, mas imbuído demais do papel de redentor tolerante.
Mas eu apostava nela. Aqueles olhos de princesa cigana demonstravam inteligência, mas também uma estranha certeza sobre o papel que dela era esperado: intolerância e agressividade.
Mudei meu discurso com ela e com os outros, procurando mostrar outras possibilidades de experimentar a vida. Falei de poesia, música, arte, e, conforme dizia Foucault, dotar de beleza a própria existência através da diversidade de vida que nos rodeia.
E ela começou a sentir diferente, pensar diferente. As respostas dos outros foram suavizando e um novo círculo foi sendo formado. Reinventar o mundo, acolher a todos, usar cores diferentes, inundar de música. Quanta coisa aí mesmo, e a gente na mesmice...
Choramos juntas na festa de conclusão de curso...

"Há momentos na vida em que saber que se pode pensar diferentemente do que se pensa, sentir diferentemente do que se aprendeu a sentir, ou realizar experiências sem muito receio de ser condenado, é fundamental para que possamos continuar olhando, sentindo e refletindo."


sábado, 15 de dezembro de 2007

Arquíloco e minha avó.


"...o coração dos homens tem a cor dos dias que Zeus traz; seu pensamento, a das ações que se entregam. " Arquíloco (primeira metade do século VII a.C.)





Fim de ano chegando. Trabalho saindo pelo ladrão. Dias com 26, 27 horas? Não resolveriam...
Administrar melhor o tempo? Pode ser... acho que é serviço mesmo. De repente parece que ficamos todos meio enlouquecidos. Ansiedade é a sensação geral.
O que queremos afinal? Entre o trabalho que nos prende um pouco mais, as compras que nem começamos, as festas de "encerramento", o amigo oculto no mínimo em três grupos diferentes, os presentes que ainda não pensamos... Ufa!
Calma! O trabalho será terminado quando for terminado. As festinhas de amigo oculto serão sempre aquela aventura onde quase 60% sai xingando: porque odiou o CD ganho; é a terceira vez seguida que recebe meia; a blusa é três números menores, etc, etc, etc...
E as compras, os presentes? As luzinhas enlouquecidas nas lojas, os sininhos martelando as eternas musiquinhas... tudo tão inho...
Ansiedade... Melhor respirar fundo e fazer uma coisa de cada vez. Incômoda a sensação de "ter" que fazer. Não gosto de me sentir obrigada, menos ainda tratando-se de festa.


Opa! A foto das crianças do orfanato no calendário me faz baixar os olhos. Pareço ouvir minha abuela: "Navidad es amor en el corazón y tiempo para extender ese amor".


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A Vida Verdadeira - Thiago de Mello





Quem entrega sua vida a serviço da vida e ao preço do amor, faz por merecer a vida. Está sobre e além de...
Conheço poucas pessoas que vivam tão intensa e levemente. Recebi este poema de uma delas. Sou grata por ter um amigo assim. Cada dia caminho melhor aprendendo com seus passos.



Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
Vida que não guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço
da vida.
Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor.
Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa.
Vem da terra dos barrancos
o
jeito doce e violento
da minha vida: esse gosto
da água negra transparente.
A vida vai no meu peito,
mas é quem vai me levando:
tição ardente velando,
girassol na escuridão.
Carrego um grito que cresce
Cada vez mais na garganta,
cravando seu travo triste
na verdade do meu canto.
Canto molhado e barrento
de menino do Amazonas
que viu a vida crescer
nos centro da terra firme.
Que sabe a vinda da chuva
pelo estremecer dos verdes
e sabe ler os recados
que chegam na asa do vento.
Mas sabe também o tempo
da febre e o gosto da fome.
Nas águas da minha infância
perdi o medo entre os rebojos.
Por isso avanço cantando
Estou no centro do rio
estou no meio da praça.
Piso firme no meu chão
sei que estou no meu lugar,
como a panela no fogo
e a estrela na escuridão.
O que passou não conta ?, indagarão
as bocas desprovidas.
Não deixa de valer nunca.
O que passou ensina
com sua garra e seu mel.
Por isso é que agora vou assim
no meu caminho. Publicamente andando
Não, não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
Aprendi
(o que o caminho me ensinou)
a caminhar cantando
como convém
a mim
e aos que vão comigo.
Pois já não vou mais sozinho.
Aqui tenho a minha vida:
feita à imagem do menino
que continua varando
os campos gerais
e que reparte o seu canto
como o seu avô
repartia o cacau
e fazia da colheita
uma ilha do bom socorro.
Feita à imagem do menino
mas a semelhança do homem:
com tudo que ele tem de primavera
de valente esperança e rebeldia.
Vida, casa encantada,
onde eu moro e mora em mim,
te quero assim verdadeira
cheirando a manga e jasmim.
Que me sejas deslumbrada
como ternura de moça
rolando sobre o capim.
Vida, toalha limpa
vida posta na mesa,
vida brasa vigilante
vida pedra e espuma
alçapão de amapolas,
sol dentro do mar,
estrume e rosa do amor:
a vida.


Há que merecê-la

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Os Estatutos do Homem - Thiago de Mello

foto: Sebastião Salgado

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura das palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
a festa do dia que chegou.
.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
.
Santiago do Chile, abril de 1964

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Filhão e Filhota



Encontrei Cris outro dia na feira. Seu efusivo cumprimento fez com que até o feirante da última barraca olhasse quem seria a linda, poderosa, deslumbrante, que ele proclamava aos gritos, giros e saltos. Por um momento tudo o que eu queria era ser a abóbora plácida da segunda barraquinha, mas, momento passado, me entreguei à alegria contagiante dele e giramos e saltamos. A feirante das abóboras deu um sorrisinho maroto, seu feirante marido foi assomado de um repentino ataque de Parkinson e desandou a mexer a cabeça como se do movimento dependessem todas as abóboras do planeta.

Quando menino Cris queria ser bailarino. Mas “bailarino meeeesmo, querida, de collant e sapatilha, igual ao russo que passou na televisão”. Com a bermuda branca e a blusa roxa bem que ele poderia estar num musical: pela leveza dos movimentos, o brilho que toda sua figura irradiava. No lugar das sapatilhas, porém, uma sandália de salto bem alto.
Em que momento Cris deixou de sonhar?
Lembrei-me do filme Billy Elliot e me veio à mente a distância entre a cultura brasileira e a de alguns países europeus. Em Billy, a vida dá certo conforme seus planos. Ele TEM uma família. Preconceituosa a principio, mas desenvolvida o suficiente para reconhecer o valor da arte e do artista. Billy TEM uma escola que desenvolve programas com conteúdos que vão além das 'matérias'. TEM uma professora que faz avaliações reflexivas das habilidades, atitudes, e ainda valoriza e respeita as escolhas de cada um. Em nossas escolas trabalha-se pouco os Temas Transversais (abordagem de vários assuntos com predominância da ética). Esquecem que eles fazem parte dos conteúdos de forma a permitir que TODAS as disciplinas os trabalhem. É comum ouvir-se nas conversas, observações como: “Ah, aquele... a bichinha da terceira carteira...”, ou, “A fulana, não sei não... você viu a roupa de menino que ela usa?” Não digo que a “culpa” é da escola e dos professores. Eles geralmente reproduzem o preconceito sexual absurdo e arcaico que ainda permeia nossa sociedade, sem conseguir romper totalmente o círculo rançoso para construir o novo, o saudável.
Desde o nascimento as meninas ganham coisas de meninas e os meninos, de menino. Isso não é um preconceito sexual velado? Se a mãe ou o pai vêm o filhão experimentando o sapato de salto e o vestido da irmã, o que acontece? É um ai-meu-deus sem tamanho... O filhão deverá ser o maior centro avante do time e, para isso, ganha bola e chuteira ainda no berço... A filhota deverá ser a princesinha da turma e, para isso, tem a orelha furada ainda na maternidade e ganha o conjunto pulseirinha - brinquinho da madrinha... O que isso é, senão papéis sexuais pré-determinados? Estereotipo do que deve ser o papel do homem e da mulher.
O que vemos constantemente pisado e repisado na televisão brasileira? Raramente um programa sobre balé, formação de bailarinos, ou congêneres. Em contrapartida, zilhões de piadinhas idiotas que tentam fazer rir usando puramente o preconceito. Gordos, idosos, homossexuais, enfim, qualquer um que fuja aos parâmetros ditos normais. Onde está a normalidade? O que é ser normal? Quem estabeleceu esses parâmetros comparativos? Socialmente e culturalmente estamos a uma enorme distância de onde se passa Billy. Entretanto, não há desculpa para o desamor, desrespeito e a falta de ética. Preparar para a vida traz consigo a noção que alguma coisa deve acontecer lá na frente. Não há preparo para... a hora é agora... a realidade é agora.

A opção sexual de Cris, nada tem a ver com seu desejo menino de ser bailarino. Hoje, ele trabalha como carregador de sacos (60k) na cooperativa local e seu bíceps faria inveja ao Stalone.
Comprei duas abóboras enormes, o que provocou um suadouro no feirante-abóbora pela distância do meu carro, afinal, eu e Cris estávamos com as mãos ocupadas com os copos de caldo de cana e algumas sacolinhas com verduras e flores...

domingo, 2 de dezembro de 2007

Nem Dante...

imagem: O inferno de Dante (detalhe) - Brunelleschi


O caso da menina de Abaetuba (PA), presa em uma cela com vários homens por quase um mês, traz a tona toda nossa bestialidade. Entre tantos, mais um caso de violação sádica da dignidade humana, resultante do desprezo social e do desdém pelos marginalizados.
Depois do crime cometido, causa revolta a maneira como os envolvidos se defendem. A idade da menina é motivo para alegações de desconhecimento até ameaças e fraude de documentação. Seria até engraçado, se não fosse tão trágico. Aos quinze não pode; aos dezoito pode? Aos sessenta a mulher teria que pagar aos presos?
Revoltante a condição feminina determinada como descarga sexual. Se já está na prostituição, não é mais considerado o estupro ou a tortura. Nomeadas latrinas de todas as taras têm negado qualquer simulacro de justiça. Com ‘elas’ tudo é válido. Como se esse olhar imoral e amoral diminuísse algo da bruteza do sistema, ou a dor das vítimas.
Aprisionadas em celas verdadeiras ou em celas de prostíbulos, transitam nossas meninas quase sem socorro. E o socorro faz-se impossível, algumas vezes, quando parte da própria ‘justiça’ o descalabro.
Li no jornal que um dos presos, compadecido pela situação da menina, cuidou de buscar em uma escola, o atestado de sua idade. Comportou-se com mais dignidade que todo o sistema prisional do caso.
Nem Dante teria pensado para seu inferno uma tortura tão hedionda...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Distâncias

imagem: Ely Borges Frazão




Distâncias

Não é a distância que faz a saudade,

são os nossos diferentes caminhos.



Quanto de mim percorre
as estradas que te levam longe...
Quanto de ti vem a mim
por espaços que não são meus...


Meu querer desconheces,
são rotas não pretendidas.
Tuas veias, veredas que reconheço
como voltar lentamente à vida...


domingo, 18 de novembro de 2007

"¿Por qué no te callas?"

Eduardo Galeano, em seu livro “As veias abertas da América Latina”, discorre sobre a maneira como fomos colonizados e as mazelas que se refletem até hoje por conta disso. Espanhóis e portugueses, desde o século XV exploraram o continente usando a mesma tática: opressão colonial. Não economizaram em trabalhos forçados e tortura física, o que lhes possibilitou o enriquecimento. Atrás dos portugueses e espanhóis, os ingleses, de quem eram devedores. Por certo, fomos e somos figuras importantes para enriquecer algumas nações, mesmo às custas de intermináveis crises, provocadas por dolorosa desigualdade social.
O episódio na CUMBRE, onde o rei da Espanha lançou um "¿Por qué no te callas?", demonstrou a falta de educação e diplomacia do rei, se portando como o insolente conquistador do passado, que, ao ser confrontado pelo ‘antigo colono’, não admite e busca o fim do debate à velha maneira dos arrogantes que se acham acima dos outros, ou seja, com um autoritário: CALA A BOCA!
Não comungo com muitas das idéias de Chávez, mas o que se viu no episódio em questão, pareceu-me mais uma tentativa de humilhação pública, que o lamentável desfecho de divergências políticas.
No dia anterior ao episódio Zapatero já havia sido advertido, pelos chefes de estado latino-americanos, sobre a segunda hola espanhola que está se abatendo sobre a América Latina. Em sua fala, mesmo não sendo seu dia de usar a palavra, o primeiro ministro espanhol dizia para o mundo que os países pobres deveriam parar de colocar nos países ricos a culpa por seus problemas. Começa aí a interferência de Chávez com o seguinte: "Só porque você é espanhol, Zapatero, digno homem de esquerda, tem de defender qualquer m... espanhola? Então, você defenderia também o Aznar, aquele fascista que apoiou a invasão do Iraque e um golpe contra a Venezuela?”. Referia-se ao antigo primeiro ministro espanhol e sua adesão ao golpe para tirar Chávez do poder.
Depois foi o que se viu, chegando-se ao autoritário CALA A BOCA real.
O monarca poderia estar em um ‘dia de fúria’, mas seu comportamento pode ter outras leituras: mostrou que é um valentão; que Chávez poderia ser calado; que se deve desviar a atenção mundial sobre o que acontece política e economicamente entre os países ricos e pobres.

A relevância sobre o que ali era discutido ficou em segundo plano.

Que oportuno para a Espanha o gesto real...

domingo, 11 de novembro de 2007

DEVOLVE


Edward Hooper - New York Movie, 1939



Devolve
Mário Lago

Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi
Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci

Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci
Devolve, que eu devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti.


O entardecer nos dias chuvosos faz a gente olhar para trás. Não há nada lá. Restos de velhas máscaras desmanchando-se na garoa...
E enquanto isso, o rei da Espanha briga com o presidente venezuelano.



sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Quase avó...



Quando meu filho disse que eu ia ser avó, foi estranho. Me emocionei com a boa notícia, mas não ouvi anjos, trombetas e sinos como falam alguns. Estranhamente senti saudades... deles pequeninos...
Dia seguinte, meu aniversário, resolvi plantar quatrocentas árvores e acabar de escrever o livro que ainda nem começara. Nos intervalos, casaquinhos de tricô, cadeiras de balanço, berceuses murmuradas e pernas arrastando. Avó!
Meio da festa o "avô" diz baixinho e com lágrimas nos olhos que já poderia morrer... concordei docemente pensando em querubins gordinhos e... PERAÍ! Em dois dias estavamos envelhecendo rapidamente e representando estereótipos do século retrasado. Sempre gostamos muito de crianças e curtimos pra valer as várias fases dos filhos. Nada mais natural e prazeroso começar de novo. Isso requeria uma aventura, no mínimo para ter o que contar ao neto depois. Radicalizamos! Aproveitando os feriados de outubro fomos fazer rapel, canoagem e trilhas com todos os filhos. Foi bom demais...
Tive certeza que iria mesmo ser avó quando no meio da trilha selvagem e verticalíssima que vai dar em cima da cachoeira de mais de 45 metros, travei! Absolutamente, travei! O ar que se recusava a entrar nos pulmões provocava delírios de mais de quarenta anos de cigarro, picanhas, vodkas, além do gosto insuportável da falta de saliva... Os gêmeos, um deles pai da criança que tinha uma avó pregada na montanha, vieram em meu socorro. Um puxava e o outro empurrava. O avô, aquele que já podia morrer, subiu rapidinho, por conta de muitos anos sem fumar e uma magreza insultante, na minha modesta opinião. Nem me atrevi a ter medo de descer fazendo cascading (rapel na cachoeira), porque tinha certeza que meus pulmões haviam ficado em alguma árvore em meio àquela subida. Recuperei meus pulmões e o amor próprio na canoagem. A água, meu elemento, ajudou bastante, com aquela coisa dos corpos ficarem mais leves... Fizemos todos os níveis de dificuldade das corredeiras... Muito bom!!
É lógico que já estou comprando roupinhas e anunciando aos quatro ventos que meu neto vem... Muitas aventuras faremos juntos. Só para reforçar estou lendo as "Crônicas de Nárnia", ou elas, ou paro de fumar.