segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Feliz 2008



Desejo em 2008 que você seja sujeito de sua experiência de vida, tratando-a como um território de passagem, lugar de acolhida ao que chegar, espaço onde os acontecimentos têm tempo de ter tempo. Que deixe de lado a preocupação com o tempo pensado e faça uma abertura na paixão, na disponibilidade e até na incerteza para produzir mais sentido ao que está "por-vir".


Seja feliz!

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal


"Navidad es amor en el corazón y tiempo para extender ese amor".






quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Aceitação é bem mais que tolerância



Sou sempre atraída por coisas que me acontecem, que me toquem... Não quero ficar como Carolina, apenas olhando a banda passar. A aventura de viver é maravilhosa, justamente por não ter fórmula, por um dia nunca ser igual ao outro. Eles vêm e vão... De cada um, fica o que nos marca... Walter Benjamin dizia ser cada vez mais rara a experiência, mesmo se passando tanta coisa. Se não nos permitirmos mais tempo e espaço para que as coisas nos aconteçam, não seremos sujeitos da experiência.

No caso da menina, infelizmente, eu sentia da parte da maioria, mais tolerância que aceitação. Digo infelizmente porque me queriam segura, determinada. É o ativismo moderno, que afeta aos que 'comandam' a escola de fora, e também aqueles que dela fazem parte, cobrando a todo instante, um papel, uma postura, uma resposta rápida e certeira, não nos deixando tempo para termos tempo.
E ela não facilitava nada. Estava sempre pré-disposta a brigar. “Bateu, levou!”, “comigo é assim, não levo desaforo para casa”. E dá-lhe diretoria!
Até o final da 6ª série perdi a conta das vezes que a encaminharam para lá. Professores, funcionários, pais de outras crianças, alunos agredidos, etc... Histórico familiar conhecido: mãe alcoólatra, diversos “padrastos” brutais até a morte da mãe, quando passa a ficar com o pai; menos agressivo, mas imbuído demais do papel de redentor tolerante.
Mas eu apostava nela. Aqueles olhos de princesa cigana demonstravam inteligência, mas também uma estranha certeza sobre o papel que dela era esperado: intolerância e agressividade.
Mudei meu discurso com ela e com os outros, procurando mostrar outras possibilidades de experimentar a vida. Falei de poesia, música, arte, e, conforme dizia Foucault, dotar de beleza a própria existência através da diversidade de vida que nos rodeia.
E ela começou a sentir diferente, pensar diferente. As respostas dos outros foram suavizando e um novo círculo foi sendo formado. Reinventar o mundo, acolher a todos, usar cores diferentes, inundar de música. Quanta coisa aí mesmo, e a gente na mesmice...
Choramos juntas na festa de conclusão de curso...

"Há momentos na vida em que saber que se pode pensar diferentemente do que se pensa, sentir diferentemente do que se aprendeu a sentir, ou realizar experiências sem muito receio de ser condenado, é fundamental para que possamos continuar olhando, sentindo e refletindo."


sábado, 15 de dezembro de 2007

Arquíloco e minha avó.


"...o coração dos homens tem a cor dos dias que Zeus traz; seu pensamento, a das ações que se entregam. " Arquíloco (primeira metade do século VII a.C.)





Fim de ano chegando. Trabalho saindo pelo ladrão. Dias com 26, 27 horas? Não resolveriam...
Administrar melhor o tempo? Pode ser... acho que é serviço mesmo. De repente parece que ficamos todos meio enlouquecidos. Ansiedade é a sensação geral.
O que queremos afinal? Entre o trabalho que nos prende um pouco mais, as compras que nem começamos, as festas de "encerramento", o amigo oculto no mínimo em três grupos diferentes, os presentes que ainda não pensamos... Ufa!
Calma! O trabalho será terminado quando for terminado. As festinhas de amigo oculto serão sempre aquela aventura onde quase 60% sai xingando: porque odiou o CD ganho; é a terceira vez seguida que recebe meia; a blusa é três números menores, etc, etc, etc...
E as compras, os presentes? As luzinhas enlouquecidas nas lojas, os sininhos martelando as eternas musiquinhas... tudo tão inho...
Ansiedade... Melhor respirar fundo e fazer uma coisa de cada vez. Incômoda a sensação de "ter" que fazer. Não gosto de me sentir obrigada, menos ainda tratando-se de festa.


Opa! A foto das crianças do orfanato no calendário me faz baixar os olhos. Pareço ouvir minha abuela: "Navidad es amor en el corazón y tiempo para extender ese amor".


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

A Vida Verdadeira - Thiago de Mello





Quem entrega sua vida a serviço da vida e ao preço do amor, faz por merecer a vida. Está sobre e além de...
Conheço poucas pessoas que vivam tão intensa e levemente. Recebi este poema de uma delas. Sou grata por ter um amigo assim. Cada dia caminho melhor aprendendo com seus passos.



Pois aqui está a minha vida.
Pronta para ser usada.
Vida que não guarda
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço
da vida.
Para servir ao que vale
a pena e o preço do amor.
Ainda que o gesto me doa,
não encolho a mão: avanço
levando um ramo de sol.
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa.
Vem da terra dos barrancos
o
jeito doce e violento
da minha vida: esse gosto
da água negra transparente.
A vida vai no meu peito,
mas é quem vai me levando:
tição ardente velando,
girassol na escuridão.
Carrego um grito que cresce
Cada vez mais na garganta,
cravando seu travo triste
na verdade do meu canto.
Canto molhado e barrento
de menino do Amazonas
que viu a vida crescer
nos centro da terra firme.
Que sabe a vinda da chuva
pelo estremecer dos verdes
e sabe ler os recados
que chegam na asa do vento.
Mas sabe também o tempo
da febre e o gosto da fome.
Nas águas da minha infância
perdi o medo entre os rebojos.
Por isso avanço cantando
Estou no centro do rio
estou no meio da praça.
Piso firme no meu chão
sei que estou no meu lugar,
como a panela no fogo
e a estrela na escuridão.
O que passou não conta ?, indagarão
as bocas desprovidas.
Não deixa de valer nunca.
O que passou ensina
com sua garra e seu mel.
Por isso é que agora vou assim
no meu caminho. Publicamente andando
Não, não tenho caminho novo.
O que tenho de novo
é o jeito de caminhar.
Aprendi
(o que o caminho me ensinou)
a caminhar cantando
como convém
a mim
e aos que vão comigo.
Pois já não vou mais sozinho.
Aqui tenho a minha vida:
feita à imagem do menino
que continua varando
os campos gerais
e que reparte o seu canto
como o seu avô
repartia o cacau
e fazia da colheita
uma ilha do bom socorro.
Feita à imagem do menino
mas a semelhança do homem:
com tudo que ele tem de primavera
de valente esperança e rebeldia.
Vida, casa encantada,
onde eu moro e mora em mim,
te quero assim verdadeira
cheirando a manga e jasmim.
Que me sejas deslumbrada
como ternura de moça
rolando sobre o capim.
Vida, toalha limpa
vida posta na mesa,
vida brasa vigilante
vida pedra e espuma
alçapão de amapolas,
sol dentro do mar,
estrume e rosa do amor:
a vida.


Há que merecê-la

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Os Estatutos do Homem - Thiago de Mello

foto: Sebastião Salgado

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III)da Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948.
Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.
.
Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
.
Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.
.
Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.
.
Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
.
Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura das palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.
.
Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
.
Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.
.
Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.
.
Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.
.
Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.
.
Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
.
Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.
.
Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.
.
Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
a festa do dia que chegou.
.
Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
.
Santiago do Chile, abril de 1964

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Filhão e Filhota



Encontrei Cris outro dia na feira. Seu efusivo cumprimento fez com que até o feirante da última barraca olhasse quem seria a linda, poderosa, deslumbrante, que ele proclamava aos gritos, giros e saltos. Por um momento tudo o que eu queria era ser a abóbora plácida da segunda barraquinha, mas, momento passado, me entreguei à alegria contagiante dele e giramos e saltamos. A feirante das abóboras deu um sorrisinho maroto, seu feirante marido foi assomado de um repentino ataque de Parkinson e desandou a mexer a cabeça como se do movimento dependessem todas as abóboras do planeta.

Quando menino Cris queria ser bailarino. Mas “bailarino meeeesmo, querida, de collant e sapatilha, igual ao russo que passou na televisão”. Com a bermuda branca e a blusa roxa bem que ele poderia estar num musical: pela leveza dos movimentos, o brilho que toda sua figura irradiava. No lugar das sapatilhas, porém, uma sandália de salto bem alto.
Em que momento Cris deixou de sonhar?
Lembrei-me do filme Billy Elliot e me veio à mente a distância entre a cultura brasileira e a de alguns países europeus. Em Billy, a vida dá certo conforme seus planos. Ele TEM uma família. Preconceituosa a principio, mas desenvolvida o suficiente para reconhecer o valor da arte e do artista. Billy TEM uma escola que desenvolve programas com conteúdos que vão além das 'matérias'. TEM uma professora que faz avaliações reflexivas das habilidades, atitudes, e ainda valoriza e respeita as escolhas de cada um. Em nossas escolas trabalha-se pouco os Temas Transversais (abordagem de vários assuntos com predominância da ética). Esquecem que eles fazem parte dos conteúdos de forma a permitir que TODAS as disciplinas os trabalhem. É comum ouvir-se nas conversas, observações como: “Ah, aquele... a bichinha da terceira carteira...”, ou, “A fulana, não sei não... você viu a roupa de menino que ela usa?” Não digo que a “culpa” é da escola e dos professores. Eles geralmente reproduzem o preconceito sexual absurdo e arcaico que ainda permeia nossa sociedade, sem conseguir romper totalmente o círculo rançoso para construir o novo, o saudável.
Desde o nascimento as meninas ganham coisas de meninas e os meninos, de menino. Isso não é um preconceito sexual velado? Se a mãe ou o pai vêm o filhão experimentando o sapato de salto e o vestido da irmã, o que acontece? É um ai-meu-deus sem tamanho... O filhão deverá ser o maior centro avante do time e, para isso, ganha bola e chuteira ainda no berço... A filhota deverá ser a princesinha da turma e, para isso, tem a orelha furada ainda na maternidade e ganha o conjunto pulseirinha - brinquinho da madrinha... O que isso é, senão papéis sexuais pré-determinados? Estereotipo do que deve ser o papel do homem e da mulher.
O que vemos constantemente pisado e repisado na televisão brasileira? Raramente um programa sobre balé, formação de bailarinos, ou congêneres. Em contrapartida, zilhões de piadinhas idiotas que tentam fazer rir usando puramente o preconceito. Gordos, idosos, homossexuais, enfim, qualquer um que fuja aos parâmetros ditos normais. Onde está a normalidade? O que é ser normal? Quem estabeleceu esses parâmetros comparativos? Socialmente e culturalmente estamos a uma enorme distância de onde se passa Billy. Entretanto, não há desculpa para o desamor, desrespeito e a falta de ética. Preparar para a vida traz consigo a noção que alguma coisa deve acontecer lá na frente. Não há preparo para... a hora é agora... a realidade é agora.

A opção sexual de Cris, nada tem a ver com seu desejo menino de ser bailarino. Hoje, ele trabalha como carregador de sacos (60k) na cooperativa local e seu bíceps faria inveja ao Stalone.
Comprei duas abóboras enormes, o que provocou um suadouro no feirante-abóbora pela distância do meu carro, afinal, eu e Cris estávamos com as mãos ocupadas com os copos de caldo de cana e algumas sacolinhas com verduras e flores...

domingo, 2 de dezembro de 2007

Nem Dante...

imagem: O inferno de Dante (detalhe) - Brunelleschi


O caso da menina de Abaetuba (PA), presa em uma cela com vários homens por quase um mês, traz a tona toda nossa bestialidade. Entre tantos, mais um caso de violação sádica da dignidade humana, resultante do desprezo social e do desdém pelos marginalizados.
Depois do crime cometido, causa revolta a maneira como os envolvidos se defendem. A idade da menina é motivo para alegações de desconhecimento até ameaças e fraude de documentação. Seria até engraçado, se não fosse tão trágico. Aos quinze não pode; aos dezoito pode? Aos sessenta a mulher teria que pagar aos presos?
Revoltante a condição feminina determinada como descarga sexual. Se já está na prostituição, não é mais considerado o estupro ou a tortura. Nomeadas latrinas de todas as taras têm negado qualquer simulacro de justiça. Com ‘elas’ tudo é válido. Como se esse olhar imoral e amoral diminuísse algo da bruteza do sistema, ou a dor das vítimas.
Aprisionadas em celas verdadeiras ou em celas de prostíbulos, transitam nossas meninas quase sem socorro. E o socorro faz-se impossível, algumas vezes, quando parte da própria ‘justiça’ o descalabro.
Li no jornal que um dos presos, compadecido pela situação da menina, cuidou de buscar em uma escola, o atestado de sua idade. Comportou-se com mais dignidade que todo o sistema prisional do caso.
Nem Dante teria pensado para seu inferno uma tortura tão hedionda...

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Distâncias

imagem: Ely Borges Frazão




Distâncias

Não é a distância que faz a saudade,

são os nossos diferentes caminhos.



Quanto de mim percorre
as estradas que te levam longe...
Quanto de ti vem a mim
por espaços que não são meus...


Meu querer desconheces,
são rotas não pretendidas.
Tuas veias, veredas que reconheço
como voltar lentamente à vida...


domingo, 18 de novembro de 2007

"¿Por qué no te callas?"

Eduardo Galeano, em seu livro “As veias abertas da América Latina”, discorre sobre a maneira como fomos colonizados e as mazelas que se refletem até hoje por conta disso. Espanhóis e portugueses, desde o século XV exploraram o continente usando a mesma tática: opressão colonial. Não economizaram em trabalhos forçados e tortura física, o que lhes possibilitou o enriquecimento. Atrás dos portugueses e espanhóis, os ingleses, de quem eram devedores. Por certo, fomos e somos figuras importantes para enriquecer algumas nações, mesmo às custas de intermináveis crises, provocadas por dolorosa desigualdade social.
O episódio na CUMBRE, onde o rei da Espanha lançou um "¿Por qué no te callas?", demonstrou a falta de educação e diplomacia do rei, se portando como o insolente conquistador do passado, que, ao ser confrontado pelo ‘antigo colono’, não admite e busca o fim do debate à velha maneira dos arrogantes que se acham acima dos outros, ou seja, com um autoritário: CALA A BOCA!
Não comungo com muitas das idéias de Chávez, mas o que se viu no episódio em questão, pareceu-me mais uma tentativa de humilhação pública, que o lamentável desfecho de divergências políticas.
No dia anterior ao episódio Zapatero já havia sido advertido, pelos chefes de estado latino-americanos, sobre a segunda hola espanhola que está se abatendo sobre a América Latina. Em sua fala, mesmo não sendo seu dia de usar a palavra, o primeiro ministro espanhol dizia para o mundo que os países pobres deveriam parar de colocar nos países ricos a culpa por seus problemas. Começa aí a interferência de Chávez com o seguinte: "Só porque você é espanhol, Zapatero, digno homem de esquerda, tem de defender qualquer m... espanhola? Então, você defenderia também o Aznar, aquele fascista que apoiou a invasão do Iraque e um golpe contra a Venezuela?”. Referia-se ao antigo primeiro ministro espanhol e sua adesão ao golpe para tirar Chávez do poder.
Depois foi o que se viu, chegando-se ao autoritário CALA A BOCA real.
O monarca poderia estar em um ‘dia de fúria’, mas seu comportamento pode ter outras leituras: mostrou que é um valentão; que Chávez poderia ser calado; que se deve desviar a atenção mundial sobre o que acontece política e economicamente entre os países ricos e pobres.

A relevância sobre o que ali era discutido ficou em segundo plano.

Que oportuno para a Espanha o gesto real...

domingo, 11 de novembro de 2007

DEVOLVE


Edward Hooper - New York Movie, 1939



Devolve
Mário Lago

Devolve toda a tranqüilidade
Toda a felicidade
Que eu te dei e que perdi
Devolve todos os sonhos loucos
Que eu construí aos poucos
E te ofereci

Devolve, eu peço, por favor
Aquele imenso amor
Que nos teus braços esqueci
Devolve, que eu devolvo ainda
Esta saudade infinda
Que eu tenho de ti.


O entardecer nos dias chuvosos faz a gente olhar para trás. Não há nada lá. Restos de velhas máscaras desmanchando-se na garoa...
E enquanto isso, o rei da Espanha briga com o presidente venezuelano.



sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Quase avó...



Quando meu filho disse que eu ia ser avó, foi estranho. Me emocionei com a boa notícia, mas não ouvi anjos, trombetas e sinos como falam alguns. Estranhamente senti saudades... deles pequeninos...
Dia seguinte, meu aniversário, resolvi plantar quatrocentas árvores e acabar de escrever o livro que ainda nem começara. Nos intervalos, casaquinhos de tricô, cadeiras de balanço, berceuses murmuradas e pernas arrastando. Avó!
Meio da festa o "avô" diz baixinho e com lágrimas nos olhos que já poderia morrer... concordei docemente pensando em querubins gordinhos e... PERAÍ! Em dois dias estavamos envelhecendo rapidamente e representando estereótipos do século retrasado. Sempre gostamos muito de crianças e curtimos pra valer as várias fases dos filhos. Nada mais natural e prazeroso começar de novo. Isso requeria uma aventura, no mínimo para ter o que contar ao neto depois. Radicalizamos! Aproveitando os feriados de outubro fomos fazer rapel, canoagem e trilhas com todos os filhos. Foi bom demais...
Tive certeza que iria mesmo ser avó quando no meio da trilha selvagem e verticalíssima que vai dar em cima da cachoeira de mais de 45 metros, travei! Absolutamente, travei! O ar que se recusava a entrar nos pulmões provocava delírios de mais de quarenta anos de cigarro, picanhas, vodkas, além do gosto insuportável da falta de saliva... Os gêmeos, um deles pai da criança que tinha uma avó pregada na montanha, vieram em meu socorro. Um puxava e o outro empurrava. O avô, aquele que já podia morrer, subiu rapidinho, por conta de muitos anos sem fumar e uma magreza insultante, na minha modesta opinião. Nem me atrevi a ter medo de descer fazendo cascading (rapel na cachoeira), porque tinha certeza que meus pulmões haviam ficado em alguma árvore em meio àquela subida. Recuperei meus pulmões e o amor próprio na canoagem. A água, meu elemento, ajudou bastante, com aquela coisa dos corpos ficarem mais leves... Fizemos todos os níveis de dificuldade das corredeiras... Muito bom!!
É lógico que já estou comprando roupinhas e anunciando aos quatro ventos que meu neto vem... Muitas aventuras faremos juntos. Só para reforçar estou lendo as "Crônicas de Nárnia", ou elas, ou paro de fumar.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

E a saudade?


"És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste."

Cecília Meireles

Saudade de fazer forninho com as cobertas. 'Massaginha' nos pés. Peixe assado. Carne de músculo na panela. Bordar fantasias. Jangada de bambu. 'Cosquinha' na rede até perder fôlego. Saudade da gritaria, muitos risos, choro, música irritante.

O silêncio faz apertar a garganta. A mesa ficou grande demais...

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Perigoso ser lúcida




"Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano – já me aconteceu antes.
Pois sei que – em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade – essa clareza de realidade é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, amém. "

Clarice Lispector


Ah, Clarice... você já sabia.

Não posso ficar lúcida... enlouqueço.

sábado, 3 de novembro de 2007

Voam os tubarões?


Ilustração - Gustave Doré - 1887

"Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!"

Dante, Divina Comédia, Inferno, I, 1-6.



Lembranças não separam muito bem vivos e mortos. Quem faz a chamada é o amor. Não importa o lado do rio. Atravessou, não atravessou... lembro!

Estou "nel mezzo del cammin" da minha vida? Quantas moedas cobra mesmo Caronte? Não sei lidar direito com números, deixo a contabilidade por aí (onde por os cigarros? as caminhadas amanhã eu começo? ah, mas este vinho é mesmo italiano? carne ou vegetais?). Cansaço!

Tubarões não podem dormir. Parados, morrem asfixiados. Nadam até dormindo. Cansaço! E se parasse um pouco? Sinto dores nas feridas... Cansaço! Onde está o fim da floresta? Preciso parar...posso? Não!

Virgílio? Beatriz? Alguém?

Busco em mim a resposta. Cigarras não nadam, voam... e cantam até o fim.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Saci ou Bruxa?


"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa."
(Guimarães Rosa - Grandes Sertões: Veredas)
"Let me take you down
cause I'm going to strawberry fields
Nothing is real
and nothing to get hung about
Strawberry fields forever"
(Beatles - Strawberry fields forever -1967)
Substituir bruxa por saci, ou vice-versa, é matéria para discussões intermináveis.
Se o rumo da discussão fosse apenas o problema cultural e o questionamento sobre estarmos nos rendendo a costumes americanos, até que poderíamos considerar, mas não foi assim que aconteceu...
"Porque esse culto às bruxas se somos um povo temente a Deus?" - a frase veio acompanhada de olhares furibundos (eita palavrinha...), voz alterada e alguns perdigotos.
Antes de qualquer reação seguiu-se a enxurrada: "Bruxa é coisa do diabo..., O saci é nosso... (o petróleo também?), Bruxa só faz o mal..., O saci é apenas uma criança travessa..." - e dá-lhe perdigotos.
Apoplexia à vista, melhor ser democrata e 'jogar' a discussão para o grupo. Opiniões várias, algumas sobre a novela das oito e a última Caras, prevaleceu o "Halloween".
Dia do Saci? Ótimo! Mas sem revanchismo ou patriotadas com bruxas. Sem falar na maneira rasa de apelar-se, em última instância, a Deus. Fica meio sacana por a mãe ou Deus no meio... Cada um com o seu, oras! ( deixemos esse ítem para um próximo post).
O quanto existe de nacionalismo ou exclusão nessas pendengas, só as atitudes revelam. Não vejo os que criticam o Halloween falarem sobre Monteiro Lobato como um dos grandes escritores brasileiros e crítico ferrenho das mazelas políticas de sua época. Muitos nem cogitam sobre sua luta a favor do petróleo brasileiro, as críticas à política de minérios, a prisão no estado novo. Nem pensam em discutir o descaso e a briga das editoras com a grande obra do autor. Consideram normal falar sobre Harry Potter em detrimento de Pedrinho, saber até a cor do cabelo de Hermione e deixar Emília no esquecimento. As tradições brasileiras são resguardadas na obra de Monteiro Lobato. Nenhum autor mostra tanto do Brasil sem nos deixar fora do mundo.
Cultura é direito adquirido de qualquer pessoa. Falemos de nossas raízes, de nossos autores, mas sem esquecer que estamos no mundo. Por todos os perdigotos! Deixar a meninada 'brincar' com bruxas americanizadas não vai fazer desaparecer o nosso saci, desde que se fale mais, muito mais, sobre nosso povo, seu jeito de ser, suas necessidades, sonhos, esperanças...
Todos podem aprender na aula de inglês o "Trick or Treat" (Travessuras ou Gostosuras). Nada impede que conheçam os costumes celtas que originaram o dia das bruxas. Apenas mais conhecimento. Tentar ignorar o que estão vendo nas mídias várias é excluí-los de alguma forma.
Somos ricos em tradições e costumes. Não é bem o dia das bruxas que oferece perigo. Emília, uma de minhas personagens prediletas, fala sobre o mal real, a injustiça: "Dizem que não tenho coração. É falso. Tenho sim, um lindo. Só que não é de banana. Coisinhas à toa não o impressionam; mas ele dói quando vê uma injustiça. Dói tanto, que estou convencida que o maior mal deste mundo é a injustiça."
Agora, opinar sobre bruxas e sacis como se fossem entes reais, passa longe de qualquer discussão, mesmo perdigotada e furibundada.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Meu amigo Dr Psiu.


Dia conturbado, de espantar qualquer fiapo de pensamento. Escrever rapidinho sem poder ouvir a cigarra no jardim não tem graça. Ouço primeiro a cigarra...
Tanta coisa acontece.... Viver é bom!
De tudo, nada é mais importante do que quando somos tocados. Coração aberto deixa entrar beleza. Pessoas nos tocam de maneira especial. Tenho um amigo assim... Iluminado! É músico, poeta e educador. De uma simplicidade desconcertante, seu sorriso parece estar sempre dizendo "Pode entrar a casa é sua...". Nossa amizade não é daquelas de quem pegou catapora juntos, chorar o primeiro amor no ombro um do outro, telefonar de madrugada porque o gato morreu. Amizade de alguns anos, não menos amorosa que a dos amigos de infância. Por ele iniciei este blog. Porque me ensinou que o mundo fica menor quando nos comunicamos; que podemos e devemos compartilhar nossas boas experiências; que não existem soluções, mas buscas criativas. Hoje, ele vence mais uma etapa. Apresenta sua tese de doutorado. MARAVILHA!! Merece um montão de parabéns. Pelo muito que batalhou em suas pesquisas, pelo tempo voltado a esse projeto, pelas distâncias que percorreu, e, finalmente, pelo resultado do seu trabalho; contribuição importante a todos educadores.
Estou me coçando todinha para saber como será a apresentação. A pele ganha um tom esverdeado de pura ansiedade. Não importa... Nada diminui minha alegria.

Temos por alguns poetas o mesmo gostar. Para você, meu amigo, com um enorme beijo de boa sorte e muito sucesso...

"Caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante no hay camino
sino estelas en la mar."
(Antonio Machado)

Então é assim...

Não pretendo transformar este espaço em campo de batalha sobre os acontecimentos que permeiam meu tempo de viver. Dentro de uma ética aos moldes foucaultianos, olhar de fora e tentar descobrir os regimes de verdade que constituem e são constituídos por estes acontecimentos. Reiventar o falso e o verdadeiro que servem de referência ao entendimento que cada um tem do mundo e de si. Investir na imaginação, na transgressão, buscando novas formas de percorrer os mesmos caminhos.
Vamos?